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Mix Vale

A Polícia Federal deflagrou, na manhã desta quarta-feira, 30 de abril de 2025, a Operação Fantasos, uma ação de grande escala voltada para desarticular um esquema internacional de pirâmide financeira que movimentou cerca de R$ 1,6 bilhão em menos de dois anos. Com alvos no Brasil e apoio de autoridades internacionais, a operação resultou na apreensão de carros de luxo, iates, relógios de alto valor e quantias em dinheiro, evidenciando o alcance e a sofisticação do golpe. O principal articulador, Douver Torres Braga, de 48 anos, foi preso em fevereiro na Suíça pela Interpol e, posteriormente, extraditado para os Estados Unidos, onde enfrenta acusações por fraudar mais de 100 mil investidores em todo o mundo.

O esquema, conhecido como Trade Coin Club, operava sob a fachada de um programa de marketing multinível, prometendo lucros exorbitantes por meio de um suposto robô de negociação de criptomoedas. A promessa de rendimentos diários de 0,35% atraía investidores com a ilusão de ganhos rápidos e seguros. No entanto, investigações apontaram que o sistema funcionava como um clássico esquema Ponzi, onde os retornos pagos aos investidores vinham exclusivamente de novos aportes, sem qualquer atividade real de negociação.

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A ação da PF concentrou-se em Petrópolis, na Região Serrana, e Angra dos Reis, na Costa Verde do Rio de Janeiro, onde foram cumpridos 11 mandados de busca e apreensão. A Justiça Federal determinou o sequestro de bens avaliados em R$ 1,6 bilhão, valor equivalente ao montante arrecadado pelo grupo criminoso entre 2016 e 2018. A operação contou com a colaboração de agências internacionais, como o FBI, a Homeland Security Investigations (HSI) e o Internal Revenue Service Criminal Investigation (IRS-CI), destacando a complexidade e a dimensão transnacional do caso.

Golpe Bitcoin volvo – Foto: Polícia Federal
  • Apreensões incluíram:
    • Carros de luxo, como modelos elétricos de marcas premium.
    • Iates avaliados em milhões de reais.
    • Relógios de grife e joias de alto valor.
    • Quantias em dinheiro em espécie, ainda em apuração.

Origem do golpe

O Trade Coin Club, criado e liderado por Douver Torres Braga, começou a operar em 2016, aproveitando o crescente interesse global por criptomoedas. Promovido como uma oportunidade de investimento revolucionária, o esquema atraía vítimas com a promessa de um robô de inteligência artificial capaz de realizar “milhões de microtransações por segundo”. A narrativa era convincente: o sistema garantiria lucros consistentes, com retornos mínimos de 0,35% ao dia, equivalente a cerca de 11% ao mês.

Na prática, however, o robô nunca existiu. As investigações conduzidas pela Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos (SEC) revelaram que os fundos dos investidores eram desviados para contas pessoais de Braga e para uma rede de promotores que ajudavam a expandir o esquema. Entre 2016 e 2018, o Trade Coin Club arrecadou mais de 82 mil bitcoins, que, na época, equivaliam a US$ 295 milhões. Convertido ao valor atual, o montante ultrapassaria R$ 1,75 bilhão, considerando a valorização do Bitcoin nos últimos anos.

Braga, que já residiu na Flórida, Estados Unidos, e atualmente vive no Brasil, estruturou o Trade Coin Club como um programa de marketing multinível, onde os participantes eram incentivados a recrutar novos investidores para obter comissões. Essa dinâmica alimentava o crescimento exponencial do esquema, mas também acelerava sua insustentabilidade. Quando os saques começaram a superar os depósitos, em meados de 2017, o sistema entrou em colapso, deixando milhares de investidores sem acesso aos seus fundos.

Mecanismo do esquema Ponzi

O funcionamento do Trade Coin Club seguia o modelo clássico de um esquema Ponzi, onde os lucros prometidos não eram gerados por atividades legítimas, mas sim pelo dinheiro de novos investidores. A SEC detalhou que os saques solicitados pelos participantes eram pagos exclusivamente com os aportes de outros investidores, sem qualquer conexão com negociações reais no mercado de criptomoedas.

A promessa de retornos diários fixos era um dos principais atrativos. Investidores eram convencidos de que o suposto robô de negociação operava com alta precisão, aproveitando pequenas flutuações no mercado para gerar lucros constantes. Para reforçar a credibilidade, os líderes do esquema apresentavam relatórios falsificados e dashboards que simulavam ganhos, criando a ilusão de um sistema sofisticado e confiável.

Além disso, o Trade Coin Club vendia pacotes de adesão que funcionavam como contratos de investimento, classificados pela SEC como valores mobiliários. Esses pacotes, no entanto, não eram registrados junto às autoridades reguladoras, o que violava as leis de valores mobiliários dos Estados Unidos. A ausência de transparência e a falta de registros oficiais eram sinais claros de irregularidade, mas muitos investidores, atraídos pela promessa de lucros rápidos, ignoravam esses alertas.

  • Características do esquema:
    • Promessa de retornos fixos de 0, cover35% ao dia.
    • Uso de marketing multinível para atrair novos investidores.
    • Relatórios falsos para simular lucros.
    • Desvio de fundos para contas pessoais e promotores.
Relogio golpe bitcoin
Relogio golpe bitcoin – Foto: Polícia Federal

Impacto global

O alcance do Trade Coin Club era impressionante. Com mais de 100 mil investidores lesados em diversos países, o esquema explorava a febre das criptomoedas em um momento de pouca regulação no setor. Países como Brasil, Portugal, Finlândia e Coreia do Sul registraram vítimas, e autoridades locais colaboraram com as investigações americanas para rastrear os fundos desviados.

No Brasil, pelo menos 2.500 investidores foram diretamente afetados, com perdas que variam de pequenos aportes a quantias significativas. Muitos desses investidores eram pessoas comuns, atraídas pela possibilidade de multiplicar seus recursos em um mercado que parecia promissor. A falta de conhecimento sobre criptomoedas e a ausência de uma regulação robusta no período facilitaram a expansão do golpe.

As consequências para as vítimas foram devastadoras. Muitos perderam economias acumuladas ao longo de anos, enquanto outros enfrentaram dificuldades financeiras severas após investirem valores emprestados. A incapacidade de recuperar os fundos, devido à natureza descentralizada das criptomoedas e à complexidade de rastrear transações, agravou o impacto do golpe.

Ações da Polícia Federal

A Operação Fantasos representa um marco no combate a fraudes financeiras no Brasil. Iniciada após trocas de informações com autoridades internacionais, a ação teve como objetivo principal coletar provas adicionais, identificar outros envolvidos e recuperar bens adquiridos com os lucros do esquema. Os 11 mandados de busca e apreensão foram cumpridos em endereços ligados a suspeitos e empresas que teriam servido como fachada para a lavagem de dinheiro.

Em Petrópolis, agentes apreenderam carros elétricos de marcas como Tesla e Porsche, além de relógios de luxo avaliados em dezenas de milhares de reais. Em Angra dos Reis, um iate foi confiscado, reforçando a suspeita de que os lucros do esquema eram usados para sustentar um estilo de vida extravagante. As apreensões são apenas uma fração do total de bens bloqueados, que incluem contas bancárias, imóveis e outros ativos no Brasil e no exterior.

A Justiça Federal determinou o sequestro de R$ 1,6 bilhão em bens e valores, um montante que reflete a escala do prejuízo causado aos investidores. A PF trabalha agora para rastrear os fundos desviados, muitos dos quais foram transferidos para carteiras de criptomoedas e contas offshore. Técnicas de análise de blockchain têm sido fundamentais para mapear essas transações, mas a recuperação total dos valores é considerada um desafio devido à natureza anônima de algumas operações.

  • Bens apreendidos na Operação Fantasos:
    • Carros de luxo, incluindo modelos elétricos.
    • Iate de alto valor em Angra dos Reis.
    • Relógios e joias de marcas renomadas.
    • Dinheiro em espécie e ativos financeiros.

Envolvimento de Douver Torres Braga

Douver Torres Braga, apontado como o mentor do Trade Coin Club, é uma figura central no esquema. Com passagem pelos Estados Unidos, onde residiu na Flórida, ele se mudou para o Brasil antes de ser preso na Suíça em fevereiro de 2025. A captura, realizada pela Interpol, foi um desdobramento das investigações conduzidas pela SEC, que emitiu um mandado de prisão internacional.

Braga é acusado de desviar pelo menos 8.396 bitcoins, equivalente a US$ 55 milhões na época do esquema. Esses recursos foram usados para financiar um estilo de vida luxuoso, incluindo a compra de imóveis, veículos e outros bens de alto valor. A SEC também apontou que ele coordenava uma rede de promotores, responsáveis por atrair novos investidores em troca de comissões generosas.

A extradição de Braga para os Estados Unidos marcou um avanço significativo no caso. Ele enfrenta acusações de fraude, violação de leis de valores mobiliários e lavagem de dinheiro. Se condenado, pode cumprir penas severas, além de ser obrigado a restituir os valores desviados. No Brasil, as investigações continuam para determinar se outros indivíduos ou empresas locais tiveram participação direta no esquema.

Papel dos promotores

Além de Braga, outras três pessoas foram acusadas pela SEC em 2022 por envolvimento no Trade Coin Club: Joff Paradise, Keleionalani Akana Taylor e Jonathan Tetreault. Cada um deles desempenhava um papel estratégico na promoção do esquema, utilizando redes sociais, eventos presenciais e contatos pessoais para atrair investidores.

Joff Paradise, que residia em Nevada antes de se mudar para o Panamá, é acusado de liderar esforços de marketing nos Estados Unidos. Ele teria recebido 238 bitcoins, equivalentes a US$ 1,4 milhão, como pagamento por suas atividades. Keleionalani Taylor, uma das principais arrecadadoras do esquema, operava a partir de Washington e, posteriormente, do Havaí. Ela acumulou 735 bitcoins, cerca de US$ 2,6 milhões. Jonathan Tetreault, baseado em Massachusetts, recebeu 158 bitcoins, aproximadamente US$ 625 mil.

Tetreault, diferentemente dos outros, optou por um acordo com a SEC, aceitando as acusações sem admitir ou negar culpa. O acordo, que aguarda aprovação judicial, pode reduzir sua pena, mas os demais promotores enfrentam processos em andamento. A rede de promotores era essencial para o funcionamento do Trade Coin Club, pois criava uma aparência de legitimidade e incentivava a entrada de novos investidores.

Cronologia do Trade Coin Club

O Trade Coin Club operou em um período de grande entusiasmo pelo mercado de criptomoedas, o que facilitou sua expansão. A seguir, uma linha do tempo dos principais eventos relacionados ao esquema:

  • Dezembro de 2016: Douver Torres Braga funda o Trade Coin Club, promovendo-o como uma plataforma de investimento em criptomoedas.
  • Junho de 2017: O esquema atinge seu pico, com depósitos massivos de investidores atraídos pelas promessas de lucros.
  • Setembro de 2017: Os saques começam a superar os depósitos, sinalizando o início do colapso financeiro.
  • Novembro de 2017: O Trade Coin Club lança o “TCoin”, uma moeda própria, como parte de uma estratégia de saída (exit-scam).
  • Janeiro de 2018: A plataforma anuncia o fim das operações nos Estados Unidos, bloqueando contas de investidores americanos.
  • Maio de 2018: O esquema colapsa completamente, deixando milhares de investidores sem acesso aos fundos.
  • Novembro de 2022: A SEC anuncia acusações contra Braga e três promotores, detalhando o funcionamento do esquema Ponzi.
  • Fevereiro de 2025: Braga é preso na Suíça e extraditado para os Estados Unidos.
  • Abril de 2025: A PF deflagra a Operação Fantasos, apreendendo bens no Brasil.

Contexto das criptomoedas

O caso do Trade Coin Club reflete um período de pouca regulação no mercado de criptomoedas, quando esquemas fraudulentos proliferavam aproveitando a falta de conhecimento dos investidores. Entre 2016 e 2018, o Bitcoin experimentou uma valorização significativa, passando de cerca de US$ 400 para picos de quase US$ 20 mil. Esse movimento atraiu milhões de pessoas ao mercado, muitas delas sem experiência em investimentos.

Esquemas como o Trade Coin Club exploravam essa euforia, utilizando jargões técnicos e promessas de tecnologia avançada para enganar vítimas. A ausência de uma legislação clara em muitos países dificultava a fiscalização, permitindo que fraudadores operassem com relativa impunidade. No Brasil, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) começou a emitir alertas sobre esquemas de pirâmide apenas em 2017, quando o Trade Coin Club já estava em pleno funcionamento.

Hoje, o cenário regulatório é mais robusto, com agências como a CVM e o Banco Central monitorando atividades relacionadas a criptoativos. No entanto, a natureza descentralizada das criptomoedas ainda representa um desafio para as autoridades, especialmente em casos envolvendo transações internacionais.

Cooperação internacional

A Operação Fantasos é um exemplo de como a cooperação entre agências de diferentes países é essencial para combater crimes financeiros globais. O envolvimento do FBI, HSI e IRS-CI foi crucial para rastrear os fundos desviados pelo Trade Coin Club, muitos dos quais passaram por contas em paraísos fiscais e carteiras de criptomoedas anônimas.

A Interpol desempenhou um papel fundamental na prisão de Braga, demonstrando a importância de redes internacionais de inteligência. Além disso, autoridades de países como Portugal, Finlândia e Coreia do Sul contribuíram com informações sobre vítimas locais, ajudando a mapear a extensão do esquema. Essa colaboração reflete a crescente complexidade dos crimes financeiros, que frequentemente cruzam fronteiras e exigem respostas coordenadas.

No Brasil, a PF tem intensificado esforços para combater fraudes envolvendo criptomoedas. Nos últimos anos, operações como a Kryptos e a Pirâmide de Faraó desmantelaram esquemas semelhantes, embora em menor escala. A experiência adquirida nessas ações tem permitido à PF aprimorar suas técnicas de investigação, especialmente no uso de ferramentas de análise de blockchain.

Prevenção contra fraudes

Esquemas como o Trade Coin Club destacam a importância de educar investidores sobre os riscos do mercado de criptomoedas. Autoridades financeiras recomendam cautela ao avaliar oportunidades de investimento, especialmente aquelas que prometem retornos garantidos ou utilizam estruturas de marketing multinível.

Algumas dicas para evitar fraudes incluem:

  • Pesquisar a reputação da empresa ou plataforma antes de investir.
  • Desconfiar de promessas de lucros fixos ou muito altos em curto prazo.
  • Verificar se a empresa possui registro junto a órgãos reguladores, como a CVM ou a SEC.
  • Evitar compartilhar informações pessoais ou financeiras com desconhecidos.
  • Consultar fontes confiáveis, como o site Investor.gov, para identificar sinais de fraude.

A educação financeira é uma ferramenta poderosa para proteger investidores. No Brasil, iniciativas como o programa Educação Financeira da CVM e campanhas do Banco Central buscam orientar a população sobre os perigos de esquemas fraudulentos, promovendo decisões mais conscientes no mercado de investimentos.

Desafios na recuperação de ativos

A recuperação dos valores desviados pelo Trade Coin Club é um dos maiores desafios enfrentados pelas autoridades. Embora a Operação Fantasos tenha resultado na apreensão de bens significativos, o montante total arrecadado pelo esquema é muito superior ao valor dos ativos confiscados até o momento. A natureza descentralizada das criptomoedas complica o rastreamento de fundos, especialmente quando transferidos para carteiras anônimas ou convertidos em outras moedas.

Além disso, a dispersão dos bens em diferentes países exige acordos internacionais para o repatriamento de ativos. No caso de Braga, parte dos recursos foi investida em imóveis e bens de luxo no Brasil, mas há indícios de que contas offshore e investimentos em outros países também foram utilizados para ocultar os lucros.

A Justiça Federal brasileira trabalha em conjunto com tribunais americanos para garantir que os bens apreendidos sejam usados para indenizar as vítimas. No entanto, a complexidade do processo e o grande número de investidores afetados tornam a reparação um objetivo de longo prazo.

Legado do caso

O caso do Trade Coin Club deixa lições importantes para investidores e reguladores. Para os investidores, serve como um alerta sobre a necessidade de diligência ao avaliar oportunidades no mercado de criptomoedas. Para as autoridades, reforça a importância de desenvolver ferramentas e regulamentações capazes de acompanhar a evolução do setor financeiro digital.

No Brasil, a Operação Fantasos consolida a posição da Polícia Federal como uma força ativa no combate a crimes financeiros internacionais. A parceria com agências estrangeiras e o uso de tecnologias avançadas, como a análise de blockchain, demonstram um compromisso com a proteção dos cidadãos e a manutenção da integridade do sistema financeiro.

O impacto do Trade Coin Club ainda é sentido por milhares de vítimas, muitas das quais enfrentam dificuldades para reconstruir suas finanças. A luta contra fraudes financeiras continua, com a promessa de que casos como esse sirvam de exemplo para prevenir novos golpes no futuro.

  • Lições do caso:
    • Importância da educação financeira para investidores.
    • Necessidade de regulação mais rigorosa no mercado de criptoativos.
    • Valor da cooperação internacional no combate a crimes financeiros.
    • Uso de tecnologias como blockchain para rastrear fraudes.

Luís Henrique Costa é jornalista formado pela FMU, editor-chefe e fundador do Mix Vale, portal de notícias em atividade desde 2013. Responde pela direção editorial do veículo, que cobre Brasil e mundo em economia, benefícios sociais, esportes, tecnologia, ciência e entretenimento. Atua na área há mais de 15 anos e lidera uma equipe de cerca de 15 colaboradores.

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