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A comercialização irregular de medicamentos no Brasil ganhou um novo capítulo com a oferta de Mounjaro, uma caneta emagrecedora ainda não liberada para venda em farmácias, por clínicas de estética. Estabelecimentos em São Luís, no Maranhão, e Teresina, no Piauí, foram flagrados vendendo o remédio em doses fracionadas, sem receita médica e até com entrega delivery. A prática, que desrespeita normas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), levanta preocupações sobre a segurança dos pacientes e a crescente onda de contrabando do medicamento. A farmacêutica Eli Lilly, fabricante do Mounjaro, alerta para riscos graves, incluindo consequências potencialmente fatais.

Autorizado em 2023 para tratar diabetes tipo 2, o Mounjaro, cujo princípio ativo é a tirzepatida, deve chegar às farmácias brasileiras apenas na segunda quinzena de maio. Apesar disso, a procura pelo medicamento, apelidado de “Ozempic de rico” por sua promessa de maior eficácia na perda de peso, alimenta um mercado paralelo. Clínicas anunciam o produto em redes sociais e WhatsApp, atraindo clientes com promessas de emagrecimento rápido. A Anvisa reforça que a venda é exclusiva de farmácias, e o fracionamento das doses é proibido.

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A Receita Federal intensificou a fiscalização nos aeroportos, onde o contrabando de Mounjaro disparou em 2025. Dados apontam que o valor das apreensões no primeiro trimestre já supera 74% do total registrado em 2024. A situação expõe vulnerabilidades no controle de medicamentos e os riscos de um mercado movido pela busca por soluções estéticas.

  • Irregularidades detectadas: Venda sem receita, fracionamento de doses e entrega em condições inadequadas.
  • Ação da Anvisa: Novas regras exigirão retenção de receitas a partir de julho.
  • Alerta da fabricante: Produtos podem ser falsificados, com riscos à saúde.

Preços elevados no mercado ilegal

A comercialização clandestina do Mounjaro ocorre a preços exorbitantes, refletindo a alta demanda e a escassez do produto no Brasil. Em Teresina, uma clínica oferece doses fracionadas que variam de R$ 900 a R$ 1.600, enquanto uma caneta completa, com quatro doses, é anunciada por até R$ 6.900. Esses valores superam o teto estabelecido pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED), que fixa preços entre R$ 1.752,58 e R$ 3.952,37, dependendo da dosagem e do estado. No Maranhão, o delivery de doses em seringas acondicionadas em isopor com gelo aumenta os custos logísticos, mas não garante a qualidade do medicamento.

Em São Luís, a entrega é feita sem qualquer verificação de prescrição médica. Uma atendente de uma clínica local revelou que o Mounjaro é extraído da embalagem original e enviado em seringas, prática que especialistas consideram arriscada. A endocrinologista Simone Van de Sande Lee, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, destaca que o manuseio inadequado pode levar à contaminação ou à perda de eficácia do medicamento. A falta de refrigeração adequada durante o transporte também compromete a integridade do produto.

  • Preços no mercado negro: Até quatro vezes superiores aos valores oficiais no exterior.
  • Riscos do fracionamento: Contaminação e perda de potência do medicamento.
  • Comparação internacional: Na Europa, uma caneta custa cerca de R$ 1.200.

Fiscalização intensificada nos aeroportos

O aumento do contrabando de Mounjaro reflete a dificuldade de controlar a entrada ilegal do medicamento no Brasil. A Receita Federal registrou 470 apreensões nos dois primeiros meses de 2025, superando as 292 de todo o ano de 2024. No Aeroporto Internacional de Fortaleza, 302 canetas foram confiscadas durante o feriado de abril, em operações que flagraram passageiros escondendo o produto em malas, roupas e até imagens de santos. Em Recife, uma carga avaliada em R$ 1 milhão foi retida com um passageiro vindo do Reino Unido.

A Polícia Federal também intensificou as ações, apreendendo 1.313 unidades do medicamento nos últimos 12 meses, sendo 1.079 apenas em 2025. Um caso emblemático ocorreu em Salvador, onde um homem de 22 anos foi flagrado com 100 canetas presas ao corpo, sob a roupa. A Receita Federal identificou ligações do passageiro com grupos que revendem o medicamento para clínicas de estética, evidenciando uma rede estruturada de contrabando.

Os métodos usados pelos contrabandistas variam de caixas de brinquedos a materiais de pesca, demonstrando criatividade para burlar a fiscalização. A delegada Patrícia Miranda, da Alfândega do Aeroporto do Galeão, explica que a importação por pessoas físicas é permitida com receita médica, mas o transporte em grandes quantidades sem autorização configura crime. As mercadorias apreendidas, quando em condições de uso, são doadas a órgãos públicos.

Riscos à saúde pública

A venda irregular de Mounjaro por clínicas de estética expõe consumidores a sérios riscos de saúde. A Anvisa recebeu 51 notificações de eventos adversos relacionados à tirzepatida até março de 2025, incluindo náuseas, diarreia e complicações renais. A ausência de acompanhamento médico agrava o problema, já que o medicamento exige titulação gradual de doses, ajustada à tolerância do paciente. A endocrinologista Samara Rodrigues, do Grupo Valsa Saúde, alerta que o uso indiscriminado pode levar a reações graves, especialmente em pessoas sem indicação clínica.

A manipulação inadequada do medicamento, como o fracionamento em seringas, aumenta o risco de infecções. A falta de garantia sobre a autenticidade do produto também preocupa. A Eli Lilly reforça que não fornece tirzepatida para estabelecimentos fora de farmácias autorizadas, sugerindo que as canetas vendidas ilegalmente podem ser falsificadas. Um estudo da Organização Mundial da Saúde indica que medicamentos falsificados representam até 10% do mercado global em países em desenvolvimento, cenário que pode se agravar com a popularidade do Mounjaro.

  • Eventos adversos comuns: Náuseas, diarreia e problemas renais.
  • Riscos de falsificação: Produtos sem garantia de qualidade ou eficácia.
  • Falta de prescrição: Uso sem avaliação médica aumenta complicações.

Regras da Anvisa e novas medidas

A Anvisa estabeleceu normas rígidas para a comercialização de medicamentos como o Mounjaro, restringindo a venda a farmácias e drogarias. A partir de julho de 2025, a retenção da receita médica será obrigatória para a compra de canetas emagrecedoras, medida que já se aplica a antibióticos. A decisão foi motivada pelo aumento de eventos adversos relacionados ao uso estético desses medicamentos. As receitas terão validade de 90 dias e devem ser emitidas em duas vias, com uma retida no momento da venda.

A agência também proibiu o fracionamento do Mounjaro, já que a embalagem registrada não permite a divisão de doses. A fiscalização de clínicas de estética foi intensificada em operações como “Estética com Segurança”, que interditou oito estabelecimentos no Sudeste e Centro-Oeste em fevereiro de 2025. A ação, coordenada com vigilâncias sanitárias locais, identificou irregularidades como a venda de medicamentos controlados e o uso de equipamentos sem registro.

Perfil das clínicas envolvidas

As clínicas flagradas em São Luís e Teresina operam em um modelo que combina estética com promessas de emagrecimento rápido. Em Teresina, a proprietária Lanna Coelho, nutricionista, afirmou ter perdido 21 quilos com o Mounjaro antes de oferecê-lo a clientes. A clínica anuncia um “método patenteado” chamado Peso Certo, que inclui suplementação vitamínica e aplicações semanais. No entanto, a ausência de médicos no local contraria as normas da Anvisa, que exigem prescrição médica para o uso do medicamento.

Em São Luís, a clínica adota um sistema de delivery, enviando doses fracionadas em seringas. A atendente informou que o medicamento é armazenado em local refrigerado, mas não apresentou o produto durante a visita de um repórter. A falta de transparência e a recusa em responder questionamentos sugerem práticas opacas, comuns em estabelecimentos que operam à margem da legislação.

  • Teresina: Método Peso Certo, sem médicos no local.
  • São Luís: Delivery de doses em seringas, sem prescrição.
  • Proprietária em Teresina: Testou o medicamento em si mesma antes de vender.

Contrabando em métodos ousados

Os casos de contrabando de Mounjaro revelam estratégias cada vez mais sofisticadas. Em Fortaleza, 176 canetas foram encontradas em uma carga disfarçada de material de pesca, vinda de Miami. Em outro episódio, um passageiro foi flagrado com dezenas de canetas escondidas nas meias e na cueca. No Aeroporto de Confins, em Minas Gerais, 59 canetas avaliadas em R$ 250 mil foram apreendidas em março de 2025. A Receita Federal alerta que o transporte sem refrigeração adequada compromete a qualidade do medicamento.

A integração entre Receita Federal, Polícia Federal e Anvisa tem sido fundamental para conter o mercado ilegal. A análise de risco, que identifica voos e passageiros suspeitos, permitiu interceptar cargas em aeroportos como Recife, Salvador e Fortaleza. Um caso recente no Recife envolveu 389 canetas, transportadas por um passageiro vindo do Reino Unido, em uma carga avaliada em R$ 1 milhão.

Demanda estética impulsiona mercado negro

A popularidade do Mounjaro está ligada à sua promessa de maior eficácia na perda de peso em comparação com concorrentes como o Ozempic. Estudos clínicos mostram que a tirzepatida promove uma redução média de 22% do peso corporal, contra 17% da semaglutida, princípio ativo do Ozempic. Esse diferencial atrai consumidores em busca de soluções rápidas, especialmente em um contexto de pressão por padrões estéticos. Influenciadoras digitais também contribuem para a demanda, anunciando o medicamento em redes sociais por preços que chegam a R$ 6.900.

A Anvisa planeja campanhas educativas para alertar sobre os riscos do uso sem prescrição. A agência destaca que o Mounjaro é um medicamento de tarja vermelha, indicado para diabetes tipo 2, e seu uso off-label para emagrecimento exige acompanhamento médico. A falta de regulação no mercado negro expõe consumidores a produtos de origem duvidosa, muitas vezes transportados em condições inadequadas.

  • Eficácia do Mounjaro: Redução de 22% do peso corporal em estudos.
  • Pressão estética: Influenciadoras amplificam a procura pelo medicamento.
  • Campanhas da Anvisa: Foco na conscientização sobre uso seguro.

Operações contra clínicas irregulares

A operação “Estética com Segurança” revelou a extensão das irregularidades em clínicas de estética no Brasil. Além das interdições em São Paulo, Minas Gerais, Goiás e Distrito Federal, a ação identificou a venda de medicamentos controlados sem autorização. Em Goiânia, um estabelecimento foi fechado por oferecer Mounjaro manipulado, prática proibida pela Anvisa. Em Belo Horizonte, três clínicas foram interditadas por irregularidades sanitárias.

A fiscalização envolveu mais de 50 agentes, que inspecionaram 31 estabelecimentos. As principais infrações incluíram a ausência de licença sanitária, o uso de equipamentos não registrados e a comercialização de medicamentos como o Mounjaro. A Anvisa planeja expandir a operação para outras regiões, incluindo o Nordeste, onde casos como os de São Luís e Teresina evidenciam a necessidade de maior controle.

Ações da fabricante Eli Lilly

A Eli Lilly tem se posicionado contra a comercialização ilegal do Mounjaro. Em carta aberta, a empresa informou que o medicamento não está disponível no Brasil e que qualquer venda antes de maio de 2025 é irregular. A farmacêutica trabalha com a Anvisa para monitorar o mercado negro e identificar produtos falsificados. A empresa também anunciou que o Mounjaro chegará às farmácias brasileiras em 7 de junho, com preços entre R$ 1.406,75 e R$ 3.952,37, dependendo da dose e do estado.

A Eli Lilly reforça que o medicamento deve ser armazenado sob refrigeração entre 2 e 8 graus Celsius, condição raramente atendida no transporte ilegal. A empresa colabora com autoridades para rastrear lotes apreendidos, mas não confirmou a autenticidade das canetas vendidas pelas clínicas de São Luís e Teresina.

Regulamentação e prazos

A Anvisa aprovou o Mounjaro em 2023 para o tratamento de diabetes tipo 2, mas a liberação para emagrecimento ainda está sob análise. Médicos podem prescrever o medicamento off-label, desde que avaliem os benefícios e riscos para o paciente. A nova regra de retenção de receitas, que entra em vigor em julho, visa reduzir o uso indiscriminado de canetas emagrecedoras. As farmácias serão obrigadas a registrar as vendas no Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados.

A regulamentação também exige que as receitas tenham duas vias, com validade de 90 dias. A medida alinha o Brasil a práticas internacionais, como as adotadas na Europa, onde o controle sobre medicamentos GLP-1 é rigoroso. A Anvisa espera que a nova regra reduza o acesso ao mercado negro e proteja a saúde pública.

  • Aprovação da Anvisa: Mounjaro liberado para diabetes em 2023.
  • Retenção de receitas: Obrigatória a partir de julho de 2025.
  • Sistema de controle: Farmácias registrarão vendas em plataforma nacional.

Casos emblemáticos de contrabando

Os casos de contrabando de Mounjaro ilustram a ousadia dos traficantes. Em Fortaleza, um passageiro foi flagrado com 60 canetas dentro da calça, enquanto outra apreensão envolveu 277 canetas e 20 unidades de retatrutida, um medicamento experimental. Em Salvador, a Receita Federal identificou um grupo familiar envolvido na revenda do medicamento para clínicas. As autoridades planejam usar esses casos como base para operações futuras contra o tráfico de medicamentos controlados.

A Receita Federal destaca que o transporte irregular de medicamentos compromete a segurança dos consumidores. Além da falta de refrigeração, as canetas apreendidas muitas vezes apresentam embalagens danificadas ou sinais de manipulação. A doação de medicamentos apreendidos a órgãos públicos depende de análises que confirmem sua qualidade e validade.

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