Ford redefine prioridades: Motores perdem espaço para tecnologia e eficiênciaPor Janderson
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A Ford, uma das gigantes do setor automotivo, está redefinindo suas prioridades em um mercado em rápida transformação. Em 25 de junho de 2025, durante uma apresentação, o vice-presidente financeiro da empresa, John Lawler, declarou que os motores a combustão, outrora o coração dos veículos, não são mais o principal fator na decisão de compra dos consumidores. Essa mudança reflete uma nova realidade global, na qual preço, eficiência energética e tecnologias embarcadas, como sistemas de assistência à condução, ganham destaque. A declaração, feita em um evento corporativo, sinaliza uma guinada estratégica da montadora norte-americana, que agora foca em atender às demandas de um público mais conectado e preocupado com sustentabilidade. A terceirização de motores, especialmente de fabricantes chineses, e a ascensão dos veículos elétricos também moldam esse cenário, alterando a cadeia produtiva e a percepção de valor no setor.
Essa reorientação estratégica da Ford não surge isoladamente. A empresa acompanha uma tendência global em que as preferências dos consumidores estão mudando. A seguir, alguns dos fatores que impulsionam essa transformação:
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- Tecnologia embarcada: Sistemas de conectividade e assistência ao motorista são agora prioridades.
- Eficiência energética: Consumidores buscam veículos que combinem desempenho com economia de combustível.
- Custo acessível: O preço final do veículo pesa mais do que a sofisticação do motor.
A declaração de Lawler, embora ousada, ecoa um movimento que já está em curso no setor automotivo, com implicações profundas para montadoras, fornecedores e consumidores.
Novo foco dos consumidores
A mudança de perspectiva da Ford está alinhada com o comportamento do público. Pesquisas recentes apontam que os compradores valorizam cada vez mais atributos como conectividade, segurança e eficiência. Um estudo da consultoria Deloitte, publicado em 2024, revelou que 68% dos consumidores consideram sistemas de assistência à condução, como frenagem automática e piloto automático adaptativo, como fatores decisivos na compra de um veículo. A central multimídia, com integração a smartphones e atualizações remotas, também aparece entre as prioridades, mencionada por 62% dos entrevistados.
Por outro lado, o motor, que no passado definia a identidade de marcas como a Ford, perdeu relevância. Modelos como o Mustang, que já foram sinônimos de potência bruta, agora compartilham espaço com versões híbridas e elétricas, como o Mustang Mach-E. Essa transição reflete não apenas uma mudança tecnológica, mas também uma evolução cultural, em que a performance do motor é menos valorizada do que a experiência geral do veículo. A Ford, ciente disso, ajusta sua comunicação para destacar atributos que atendam a essas novas expectativas, como o sistema SYNC 4, que equipa modelos recentes, como o Territory 2026.
Terceirização de motores
A produção de motores a combustão enfrenta desafios crescentes. Desenvolver uma nova família de motores exige investimentos que podem superar US$ 1 bilhão e prazos de até cinco anos, segundo dados da indústria. Em um mercado que exige agilidade, com ciclos de renovação cada vez mais curtos, muitas montadoras optam por terceirizar componentes. Fabricantes chinesas, como Chery, Geely e Great Wall Motors, emergiram como grandes fornecedoras de motores e powertrains, equipando veículos vendidos em mercados ocidentais.
Essa prática não é exclusiva da Ford. Marcas como a Volkswagen e a General Motors também recorrem a fornecedores externos para reduzir custos e acelerar a produção. Um exemplo é o motor 1.5 TSI, usado em modelos da Volkswagen, que incorpora tecnologias desenvolvidas por parceiros asiáticos. Para os consumidores, a origem do motor é muitas vezes desconhecida, já que as montadoras mantêm o foco na marca e no design do veículo.
A terceirização também responde a uma questão prática: o alto custo de certificação. Em regiões como a União Europeia, onde normas de emissões são rigorosas, projetar motores que atendam a padrões como o Euro 7 demanda recursos significativos. Comprar motores prontos, já certificados, permite que as montadoras redirecionem investimentos para áreas como eletrificação e conectividade.

Ascensão das fábricas chinesas
A China desempenha um papel central nessa transformação. O país, que lidera a adoção de veículos elétricos, viu uma queda acentuada na demanda por carros a combustão. Um relatório do Financial Times, de 2024, destacou o fenômeno das “fábricas zumbis” – unidades produtivas que operam bem abaixo de sua capacidade devido ao excesso de estoque. Essas fábricas, muitas pertencentes a marcas como BYD e SAIC, redirecionam sua produção para exportação, atendendo mercados como México, Rússia e África do Sul, onde os veículos a combustão ainda têm forte demanda.
Alguns números ilustram essa dinâmica:
- A China exportou 4,1 milhões de veículos em 2023, um aumento de 58% em relação a 2022, segundo a Associação Chinesa de Fabricantes de Automóveis.
- Cerca de 60% desses veículos eram movidos a combustão, destinados a mercados emergentes.
- Marcas chinesas, como Chery, já respondem por 12% das vendas de SUVs na América Latina.
Essa estratégia permite que as fabricantes chinesas mantenham suas operações ativas, enquanto investem pesadamente em tecnologias de eletrificação. Para montadoras ocidentais, como a Ford, a parceria com fornecedores chineses é uma solução viável para manter a competitividade em um mercado em transição.
Desafios técnicos das montadoras
Projetar motores a combustão em 2025 é uma tarefa complexa. Além dos custos elevados, as montadoras enfrentam prazos apertados e regulamentações rigorosas. Na Europa, por exemplo, a norma Euro 7, prevista para entrar em vigor em 2027, exige reduções significativas nas emissões de poluentes, como óxidos de nitrogênio (NOx). Nos Estados Unidos, padrões como o CAFE (Corporate Average Fuel Economy) pressionam as empresas a melhorar a eficiência de seus veículos.
Esses desafios técnicos incentivam a terceirização. Ao adquirir motores de fornecedores, as montadoras podem focar em áreas de maior retorno, como o desenvolvimento de softwares de bordo. A Ford, por exemplo, investiu US$ 2 bilhões em 2024 para expandir sua divisão de tecnologia, que trabalha em sistemas de conectividade e inteligência artificial. Esse redirecionamento de recursos reflete a nova realidade do setor, onde o valor percebido está nos serviços digitais, não apenas no hardware.
Mudança no comportamento do consumidor
O consumidor de 2025 é diferente daquele de décadas passadas. A geração Z, que já representa uma fatia significativa do mercado, valoriza experiências personalizadas e tecnologias intuitivas. Uma pesquisa da McKinsey, publicada em 2024, mostrou que 73% dos jovens compradores preferem veículos com sistemas de infoentretenimento avançados a modelos com motores potentes. A eficiência energética também é um fator crucial, especialmente em mercados onde o preço do combustível é elevado.
A Ford Territory 2026, lançada recentemente, é um exemplo dessa adaptação. O modelo destaca sua central multimídia de 12 polegadas e sistemas de assistência, como o controle de cruzeiro adaptativo, em vez de enfatizar as especificações do motor. Essa abordagem reflete a nova estratégia da Ford, que busca se alinhar às expectativas de um público que vê o veículo como uma extensão de sua vida digital.
Impacto na cadeia produtiva
A redução da importância dos motores a combustão está remodelando a cadeia de suprimentos. Fornecedores tradicionais, como a Bosch e a Magna, agora competem com empresas asiáticas que oferecem soluções mais baratas. Além disso, a transição para veículos elétricos está forçando as montadoras a repensar suas parcerias. A Ford, por exemplo, firmou acordos com a CATL, uma gigante chinesa de baterias, para equipar seus modelos elétricos na América do Norte.
Essa reestruturação também afeta os empregos. Na China, fábricas de motores a combustão enfrentam cortes, enquanto as linhas de produção de baterias crescem. Um relatório da Organização Internacional do Trabalho, de 2024, estimou que a transição para a eletrificação pode deslocar 2 milhões de trabalhadores no setor automotivo até 2030. As montadoras ocidentais, incluindo a Ford, precisam gerenciar essa transição para evitar impactos negativos em suas operações.
Estratégias para o futuro
A Ford não está apenas reagindo às mudanças, mas também se antecipando a elas. A empresa anunciou planos para lançar 10 novos modelos elétricos até 2027, com um investimento de US$ 30 bilhões em eletrificação. Além disso, a marca está expandindo sua oferta de serviços conectados, como atualizações over-the-air, que permitem melhorar o desempenho do veículo sem a necessidade de visitas a concessionárias.
Outras iniciativas incluem:
- Parcerias com empresas de tecnologia, como Google e Amazon, para integrar assistentes de voz.
- Desenvolvimento de softwares próprios para gerenciar frotas de veículos autônomos.
- Expansão da rede de carregamento rápido, em parceria com a Electrify America.
Essas ações mostram que a Ford está se repositionando como uma empresa de mobilidade, não apenas uma fabricante de carros. A declaração de John Lawler, nesse contexto, é mais do que uma frase de efeito: é um reflexo de uma indústria que está redefinindo suas prioridades.















