Matcha vira febre mundial, mas Japão não acompanha com produção limitada

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Matcha Foto: Matcha - Foto: janecocoa/SHUTTERSTOCK.COM

A febre global pelo matcha, o chá verde em pó japonês, está esgotando estoques e desafiando a capacidade de produção do Japão, principal fornecedor mundial. Impulsionada por influenciadores de bem-estar e pela popularidade da cultura japonesa, a demanda explodiu, mas agricultores enfrentam declínio nas áreas de cultivo, ondas de calor recordes e escassez de mão de obra. Em 2024, as exportações de chá verde cresceram 40% em volume, mas o país não consegue atender pedidos, deixando prateleiras vazias. O governo japonês tenta intervir, enquanto produtores buscam alternativas em países como China e Coreia do Sul, que não atingem a mesma qualidade.

O matcha, derivado da planta Camellia sinensis, passou de um item cerimonial no Japão para uma tendência global, presente em lattes, sobremesas e até cosméticos. A produção, no entanto, é lenta e trabalhosa, com plantas que levam anos para maturar e um processo artesanal que não acompanha o ritmo do consumo. As mudanças climáticas, com verões cada vez mais quentes, agravaram a situação, destruindo colheitas recentes.

O aumento na procura também reflete um fenômeno cultural, com redes sociais amplificando o apelo visual do matcha e seus supostos benefícios à saúde, como antioxidantes e efeito calmante. Enquanto isso, a redução no número de agricultores e a falta de sucessores no campo limitam a expansão da produção, criando um cenário de crise para o setor.

  • Principais fatores da crise: declínio na área cultivada, calor extremo e falta de trabalhadores.
  • Impacto global: fornecedores relatam estoques limitados e atrasos em pedidos.
  • Alternativas: importações de outros países, mas com qualidade inferior.

Cultivo do matcha enfrenta barreiras naturais e humanas

A produção de matcha é um processo meticuloso que começa com o cultivo da Camellia sinensis sob condições específicas. As folhas são parcialmente cultivadas à sombra, o que aumenta a clorofila e dá ao matcha sua cor verde vibrante. Após a colheita, as folhas, conhecidas como tencha, são vaporizadas, secadas e moídas em moinhos especializados, um processo que pode levar horas para produzir apenas 40 gramas do pó.

Entre 2008 e 2023, a área de cultivo de chá no Japão caiu de 48 mil para 36 mil hectares, segundo o Ministério da Agricultura, Silvicultura e Pesca (MAFF). O número de famílias agrícolas também despencou, de 46 mil para 20 mil, devido à falta de sucessores e à baixa demanda doméstica por chá verde. Muitos agricultores diversificaram suas culturas, reduzindo o foco no matcha.

O calor extremo, com o verão de 2024 sendo o mais quente já registrado, danificou colheitas de tencha, reduzindo a oferta. As mudanças climáticas também afetam a qualidade das folhas, que exigem condições específicas de temperatura e umidade.

  • Declínio de 25% na área cultivada em 15 anos.
  • Verões escaldantes destruíram parte da colheita de 2024.
  • Escassez de mão de obra em períodos de pico.
  • Plantas levam até cinco anos para maturar.

Demanda global impulsiona preços e pressiona estoques

O mercado global de matcha deve atingir US$ 5 bilhões até 2028, segundo estimativas do setor. A popularidade do chá verde em pó cresceu em países como Estados Unidos, Austrália e Europa, onde é consumido em bebidas, doces e até pratos salgados. Entre 2010 e 2023, a produção de matcha no Japão triplicou, mas cerca de 50% é exportada, o que pressiona os estoques domésticos.

Grandes marcas, como Ippodo e Marukyu Koyamaen, limitaram a venda de variedades e quantidades para atender mais clientes. Em julho de 2025, a Ippodo anunciou restrições temporárias devido à alta demanda, enquanto a Marukyu Koyamaen destacou atrasos em pedidos internacionais. Os preços do matcha subiram, com um aumento de 55% no valor das exportações entre 2020 e 2024, de 16,2 bilhões de ienes (US$ 109 milhões) para 36,4 bilhões de ienes (US$ 245 milhões).

A popularidade do matcha também é alimentada por sua presença nas redes sociais, onde influenciadores destacam seu apelo estético e benefícios à saúde, como alto teor de antioxidantes e propriedades energizantes. No entanto, o sabor terroso, muitas vezes descrito como “gramíneo”, divide opiniões, o que não impede o crescimento do mercado.

  • Exportações de chá verde japonês cresceram 40% em volume de 2020 a 2024.
  • Metade da produção de matcha é destinada à exportação.
  • Aumento de 55% no valor das exportações em quatro anos.

Impacto das mudanças climáticas na produção

As ondas de calor recordes no Japão têm causado estragos nas plantações de chá. O verão de 2024, o mais quente da história, reduziu o rendimento das colheitas de tencha entre abril e maio, períodos cruciais para a produção. Temperaturas extremas afetam o crescimento das folhas, comprometendo tanto a quantidade quanto a qualidade do matcha.

Além disso, as mudanças climáticas tornam o cultivo mais imprevisível, com chuvas irregulares e períodos de seca afetando a umidade do solo, essencial para a Camellia sinensis. Produtores relatam dificuldades em manter o padrão de qualidade exigido para o matcha de alto nível, usado em cerimônias tradicionais e produtos premium.

A situação é agravada pela dependência de métodos tradicionais. A colheita manual, por exemplo, é indispensável para garantir a qualidade, mas a falta de trabalhadores durante picos sazonais dificulta o processo. Máquinas modernas ajudam na moagem, mas não substituem a mão de obra na colheita.

  • Verão de 2024 foi o mais quente registrado no Japão.
  • Período de colheita de tencha foi severamente afetado.
  • Qualidade do matcha premium está em risco.
  • Falta de trabalhadores sazonais limita produção.

Resposta do governo japonês à crise

O governo japonês está agindo para conter a crise na produção de matcha. O MAFF anunciou medidas para apoiar os agricultores, incluindo incentivos para novos produtores entrarem no setor de chá. Programas de leasing de máquinas agrícolas foram introduzidos para reduzir custos e a dependência de mão de obra manual, que é escassa.

Outra iniciativa é estimular a reconversão de terras agrícolas para o cultivo de chá, revertendo a tendência de diversificação para outras culturas. No entanto, o impacto dessas medidas será gradual, já que as plantas de chá levam anos para atingir a maturidade. O governo também está promovendo parcerias com universidades para desenvolver técnicas de cultivo mais resistentes ao clima.

Apesar dos esforços, a dependência de métodos tradicionais e a lenta recuperação do setor agrícola limitam os resultados a curto prazo. A crise expõe a vulnerabilidade do Japão a fatores como envelhecimento da população rural e mudanças climáticas.

  • Incentivos para novos agricultores de chá.
  • Leasing de máquinas para reduzir custos.
  • Parcerias com universidades para técnicas de cultivo.
  • Reconversão de terras agrícolas para chá.

Alternativas internacionais e desafios de qualidade

Com a escassez no Japão, fornecedores globais buscam matcha em países como China e Coreia do Sul, que também cultivam Camellia sinensis. No entanto, esses países enfrentam dificuldades para atingir os padrões de qualidade japoneses, que envolvem técnicas específicas de sombreamento e moagem. O matcha chinês, por exemplo, é frequentemente considerado menos vibrante e com sabor menos refinado.

A importação de matcha de outros países pode aliviar a pressão imediata, mas compromete a reputação do produto, especialmente para consumidores que valorizam a autenticidade japonesa. Marcas premium, como Ippodo, enfatizam a origem japonesa como diferencial, o que torna a substituição por alternativas internacionais um desafio.

Além disso, o aumento da produção em outros países também enfrenta barreiras climáticas e logísticas. A China, por exemplo, lida com poluição ambiental e restrições de terra, enquanto a Coreia do Sul tem uma produção limitada, voltada principalmente para o mercado interno.

  • Matcha de China e Coreia do Sul não atinge padrões japoneses.
  • Importações podem comprometer reputação de marcas premium.
  • Produção alternativa enfrenta barreiras climáticas.

Futuro do mercado de matcha

O boom do matcha reflete uma mudança nos hábitos de consumo, com consumidores buscando produtos associados à saúde e à estética. No entanto, a incapacidade do Japão de atender à demanda global expõe fragilidades no setor agrícola. A combinação de fatores climáticos, demográficos e logísticos exige soluções de longo prazo, como investimento em tecnologia e revitalização do campo.

Enquanto o governo japonês tenta ampliar a produção, o mercado global pode ver preços ainda mais altos e maior dependência de alternativas internacionais. Para os consumidores, a febre do matcha continua, mas com o risco de prateleiras vazias e produtos de qualidade variável.

  • Crescimento projetado do mercado de matcha: US$ 5 bilhões até 2028.
  • Preços devem continuar subindo com a escassez.
  • Necessidade de inovação no cultivo e processamento.

Carolina Costa é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2019. Formação: Administração

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