Ex-ministro nega conhecimento de fraudes no INSS até operação da PF em 2023Por Beatriz
8 min de leitura
![]() |
A CPMI do INSS ouviu, nesta quinta-feira (11), o ex-ministro da Previdência Ahmad Mohamad Oliveira, que afirmou ter tomado conhecimento de descontos irregulares em benefícios de aposentados apenas em 2023, após a Operação Sem Desconto, deflagrada pela Polícia Federal. Oliveira, que ocupou cargos de destaque no INSS e no Ministério da Previdência entre 2022 e 2023, negou qualquer ciência prévia das fraudes investigadas. A sessão, conduzida pelo relator Alfredo Gaspar (União-AL), revelou tensões sobre a responsabilidade do ex-ministro e levantou questionamentos sobre a fiscalização de acordos de cooperação técnica (ACTs) com entidades associativas. O depoimento expôs fragilidades no sistema previdenciário e possíveis falhas na gestão de benefícios, impactando milhões de aposentados. O caso, que envolve descontos indevidos e movimentações financeiras significativas, segue sob investigação.
Durante o depoimento, Oliveira detalhou sua trajetória no INSS, onde atuou como diretor de Benefícios (Dirben) e presidente do instituto antes de assumir o Ministério da Previdência. Ele afirmou que, durante sua gestão, não recebeu alertas de órgãos como a Controladoria-Geral da União (CGU) ou o Tribunal de Contas da União (TCU) sobre irregularidades nos ACTs. A CPMI, instalada para apurar fraudes no sistema previdenciário, foca em descontos indevidos realizados por associações em benefícios de aposentados, muitas vezes sem autorização. O caso ganhou destaque com a Operação Sem Desconto, que revelou esquemas envolvendo entidades externas e possíveis participações de servidores do INSS.
Siga o Mix Vale no Google e veja nossas notícias primeiro
- Principais pontos levantados na CPMI:
- Oliveira negou conhecimento prévio das fraudes até 2023.
- Acordos de cooperação técnica (ACTs) foram assinados sem fiscalização adequada.
- Movimentações financeiras de entidades associativas alcançaram milhões.
- Possível envolvimento de servidores do INSS é investigado.
A sessão foi marcada por embates entre o ex-ministro e o relator, que questionou a veracidade das declarações de Oliveira, sugerindo possível omissão de informações cruciais sobre reuniões com a Polícia Federal em 2022.
Depoimento sob pressão
O relator Alfredo Gaspar confrontou Oliveira com perguntas incisivas, especialmente sobre uma reunião em novembro de 2022 com o então diretor-geral da Polícia Federal, Márcio Nunes de Oliveira. O ex-ministro foi vago ao responder sobre o tema do encontro, mencionando apenas uma possível discussão sobre o seguro defeso. Gaspar reagiu com firmeza, acusando Oliveira de possível falso testemunho. “Não acredito que o senhor tenha se reunido tantas vezes com a PF a ponto de não se lembrar de um momento tão específico”, afirmou o deputado. A tensão no depoimento revelou a complexidade do caso, com indícios de que informações relevantes podem ter sido omitidas durante a gestão de Oliveira.
Oliveira insistiu que, durante sua passagem pela Dirben e pela presidência do INSS, os descontos associativos não eram alvo de questionamentos por órgãos de controle. Ele destacou que as mais de 60 recomendações da CGU e os 500 acórdãos do TCU à época não mencionavam problemas nos ACTs. Essa ausência de alertas, segundo ele, reforça que as fraudes não eram evidentes durante sua gestão. Contudo, o relator contestou a narrativa, apontando que a responsabilidade de fiscalizar os acordos recaía sobre a Dirben, setor comandado por Oliveira.
Acordos de cooperação técnica sob escrutínio
Os acordos de cooperação técnica (ACTs) estão no centro das investigações da CPMI. Esses contratos, firmados entre o INSS e entidades associativas, permitiam descontos diretos nos benefícios de aposentados para custear mensalidades associativas. Segundo a Polícia Federal, algumas associações, como a Associação dos Aposentados Mutualistas para Benefícios Coletivos (Ambec), movimentaram cifras expressivas, como R$ 231,3 milhões, em descontos muitas vezes realizados sem consentimento dos beneficiários. Oliveira admitiu que o INSS não possuía estrutura para fiscalizar esses acordos adequadamente.
- Detalhes dos ACTs investigados:
- Assinaturas eram feitas de forma virtual e mecânica.
- Não havia auditoria detalhada dos contratos firmados.
- Entidades externas lucravam com descontos indevidos.
- Aproximadamente 50 mil aposentados foram incluídos irregularmente em um ACT com a Contag.
Oliveira reconheceu que, em 2021, um ACT com a Confederação Nacional dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares (Contag) incluiu irregularmente 50 mil aposentados. Ele atribuiu o caso a uma “falha funcional” e negou responsabilidade direta, alegando que as assinaturas eram processadas de forma automatizada. A falta de controle rigoroso nos processos de assinatura e validação dos ACTs expôs vulnerabilidades no sistema previdenciário, permitindo que entidades externas se beneficiassem indevidamente.
Possível envolvimento de servidores
Embora Oliveira tenha apontado entidades externas como principais responsáveis pelas fraudes, ele não descartou a possibilidade de participação de servidores do INSS. “Se houve envolvimento de algum servidor, que seja punido”, declarou, enfatizando que não se deve generalizar ou criminalizar todos os funcionários do instituto. A CPMI busca esclarecer até que ponto a falta de fiscalização interna facilitou os desvios e se houve conivência de agentes públicos. A Operação Sem Desconto, deflagrada em 2023, identificou esquemas sofisticados que exploravam a fragilidade dos sistemas do INSS, impactando diretamente aposentados e pensionistas.
O ex-ministro também afirmou desconhecer figuras centrais do esquema, como Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “careca do INSS”, e o empresário Maurício Camisotti. Ambos são investigados por suposto envolvimento na articulação das fraudes. A ausência de menção a esses nomes durante o depoimento reforçou as críticas do relator, que questionou a transparência das respostas de Oliveira.
Fragilidades no sistema previdenciário
A CPMI do INSS expôs falhas estruturais na gestão de benefícios previdenciários, especialmente na relação com entidades associativas. A falta de mecanismos robustos de fiscalização e a assinatura automatizada de acordos facilitaram a ação de organizações que se aproveitavam da vulnerabilidade de aposentados. Dados da Polícia Federal indicam que milhões de reais foram movimentados em descontos indevidos, muitas vezes sem o conhecimento dos beneficiários. A operação de 2023 foi um marco na identificação desses esquemas, mas a CPMI busca agora responsabilizar os envolvidos e propor melhorias no sistema.
- Medidas em discussão para evitar novas fraudes:
- Implementação de auditorias regulares nos ACTs.
- Criação de sistemas de validação para consentimento dos beneficiários.
- Reforço na fiscalização de entidades associativas.
- Treinamento de servidores para identificar irregularidades.
A CPMI também analisa a necessidade de reformas legislativas para fortalecer a proteção dos beneficiários do INSS. A expectativa é que o relatório final, a ser apresentado pelo deputado Alfredo Gaspar, aponte responsabilidades e sugira mudanças para evitar a repetição de fraudes.
Repercussão e próximos passos
O depoimento de Ahmad Oliveira gerou reações divergentes entre os membros da CPMI. Enquanto alguns parlamentares questionam a veracidade de suas declarações, outros destacam a necessidade de investigar a fundo o papel das entidades externas e de possíveis servidores envolvidos. A Operação Sem Desconto, que desencadeou as investigações, continua a revelar novos detalhes sobre o esquema, com impacto direto na confiança dos aposentados no sistema previdenciário. A CPMI planeja ouvir outros envolvidos, incluindo representantes das entidades associativas e servidores do INSS, para esclarecer a extensão das irregularidades.
A investigação também levanta debates sobre a modernização do INSS. Especialistas apontam que a digitalização de processos, embora tenha facilitado o acesso a benefícios, criou brechas para fraudes. A ausência de controles rigorosos e a dependência de sistemas automatizados, como os mencionados por Oliveira, são desafios que o instituto precisa enfrentar. A CPMI, ao final de seus trabalhos, deve propor medidas para aumentar a transparência e a segurança no gerenciamento dos benefícios.
- Cronologia dos eventos principais:
- Março de 2022: Oliveira assume o Ministério da Previdência.
- Novembro de 2022: Reunião com a Polícia Federal, sem clareza sobre o tema.
- 2023: Operação Sem Desconto revela fraudes nos descontos associativos.
- Setembro de 2025: Oliveira depõe na CPMI do INSS.
O caso das fraudes no INSS segue como um dos maiores escândalos recentes envolvendo o sistema previdenciário, com desdobramentos que podem impactar milhões de brasileiros. A CPMI continua suas atividades com o objetivo de esclarecer responsabilidades e propor soluções para proteger os beneficiários.















