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Uma pesquisa recente revelou que infecções severas por COVID-19 são capazes de despertar vírus adormecidos no corpo, um fenômeno ligado tanto a quadros mais graves da doença quanto ao desenvolvimento da COVID longa. O estudo publicado na renomada revista Nature, desafia concepções anteriores ao indicar que essa reativação ocorre mesmo em indivíduos com sistemas imunológicos considerados saudáveis, um ponto crucial para a compreensão da doença.

A descoberta, que analisou dados de mais de mil pessoas hospitalizadas com a doença, sugere que a COVID-19 não atua isoladamente. Pelo contrário, ela pode desencadear uma série de reações virais que amplificam a inflamação no organismo. Essa compreensão aprofundada dos mecanismos da doença abre novas perspectivas para o desenvolvimento de tratamentos eficazes tanto para a fase aguda quanto para as condições persistentes da COVID longa, que ainda afetam milhões globalmente.

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Entendendo a conexão entre COVID-19 e vírus latentes

A investigação científica demonstrou que a reativação de patógenos latentes está intrinsecamente ligada à intensidade da infecção por COVID-19 e à subsequente manifestação da COVID longa. Antes deste estudo aprofundado, pesquisadores já observavam indícios de que vírus “escondidos” voltavam a ficar ativos em pacientes com a síndrome pós-COVID, mas esta análise sistemática traz evidências mais robustas e detalhadas sobre a prevalência e o impacto desse fenômeno.

A equipe de pesquisa coletou amostras biológicas diversas, incluindo sangue, swabs nasais e fluidos pulmonares, de indivíduos hospitalizados com COVID-19 entre os anos de 2020 e o início de 2021. Os resultados indicaram que quase metade dos participantes experimentou a reativação de vírus comuns que estavam presentes em seus organismos sem manifestar sintomas antes da infecção por SARS-CoV-2.

Diversos vírus são despertados e suas cronologias específicas

Diversos tipos de vírus, normalmente controlados com sucesso pelo sistema imunológico, podem ser despertados pelo coronavírus SARS-CoV-2, causador da COVID-19. A pesquisa detalhou quais são esses patógenos e, de forma inédita, como se manifestam em diferentes estágios da doença, apresentando cronologias de reativação distintas para cada família viral.

  • Herpesvírus, como o citomegalovírus (CMV) e o vírus Epstein-Barr (EBV), conhecido por causar a mononucleose, popularmente chamada de “doença do beijo”.
  • Anelovírus, uma categoria de vírus que são usualmente inofensivos e, em condições normais, não provocam sintomas em seres humanos. Estima-se que mais de 90% da população adulta mundial já foi infectada por pelo menos um desses patógenos, vivendo com eles de forma latente.

Os pesquisadores notaram que a reativação não acontece de maneira uniforme para todos os vírus. O vírus Epstein-Barr e os anelovírus, por exemplo, tendem a ter picos no início da infecção por COVID-19, logo após a internação hospitalar. Já o citomegalovírus e o vírus herpes simplex geralmente surgem cerca de três semanas depois, afetando principalmente o sistema respiratório dos pacientes, o que sugere diferentes mecanismos de interação com o SARS-CoV-2.

A reativação viral em pessoas com imunidade intacta

Um dos pontos mais relevantes e surpreendentes do estudo é a constatação de que a reativação viral pode ocorrer mesmo em pessoas com sistemas imunológicos previamente saudáveis. Essa observação “mais surpreendente”, conforme descrito por Resia Pretorius, fisiologista da Universidade de Stellenbosch, na África do Sul, questiona uma hipótese científica antiga e amplamente aceita.

Havia a crença disseminada de que esses vírus latentes só se reativariam em indivíduos com imunidade já comprometida, como pacientes que vivem com HIV ou aqueles que recebem tratamentos imunossupressores. Contudo, esta nova pesquisa “derruba” essa suposição, indicando que o próprio estresse massivo e a inflamação causados pela infecção por COVID-19 são suficientes para sobrecarregar as defesas do organismo, abrindo espaço para o despertar desses patógenos.

O estudo ainda fortaleceu essa conclusão ao verificar que pacientes que estavam recebendo medicamentos imunossupressores por outras condições médicas durante a internação não apresentaram uma probabilidade maior de reativação viral do que aqueles que não tomavam tal medicação. Isso sugere fortemente que o coronavírus é o principal indutor do estresse imunitário que leva a esse fenômeno.

O que as reativações virais significam para o tratamento da COVID-19

A compreensão de que a COVID-19 pode induzir o despertar de vírus dormentes abre um novo e promissor caminho para a medicina. Se pesquisas adicionais confirmarem que a reativação viral é um fator causal direto para o agravamento da doença e para a persistência dos sintomas da COVID longa, novas abordagens terapêuticas podem surgir, visando esses patógenos secundários.

Esther Melamed, médica-cientista especializada em neuroimunologia na Universidade do Texas em Austin e coautora do estudo, afirmou que essa descoberta “poderia abrir a porta para novos tratamentos para a COVID-19 e até mesmo para a COVID longa”. O foco, nesse cenário, poderia ser em medicamentos antivirais que visam especificamente os vírus reativados ou em estratégias que controlem a resposta inflamatória amplificada por esses vírus.

Melamed ainda pontuou que, nestes casos, a COVID-19 “provavelmente induz o estresse que desencadeia as reativações, e então essas reativações amplificam ainda mais a inflamação” causada pelo SARS-CoV-2. Essa perspectiva oferece uma esperança renovada para milhões de pessoas que continuam sofrendo com os efeitos prolongados da doença, sugerindo que o tratamento não deve focar apenas no coronavírus, mas também nos “coadjuvantes” que ele desperta.

Janderson Luiz é colaborador da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2024. Formação: Atleta Profissional de Futebol

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