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Cianeto de hidrogênio, molécula ligada à química da origem da vida, dificilmente chegaria intacto à Terra trazido por cometas. A conclusão aparece em simulações de pesquisadores da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, publicadas na revista Scientific Reports em 28 de outubro de 2026. Segundo o estudo, a maioria dos cenários testados nem chegou a produzir concentrações suficientes para as reações químicas estudadas em laboratório.

“Nossos modelos mostram que os cometas, em geral, atingem a Terra rápido demais e em ângulos muito íngremes para que essas moléculas sobrevivam ao impacto”, afirmou Richard Anslow, pesquisador da Universidade de Cambridge e autor do estudo. Para ele, “isso sugere que eles provavelmente não tiveram um papel importante na origem da vida”.

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Cianeto de hidrogênio e a origem da vida: o que o estudo testou

O cometa Halley fotografado em 8 de março de 1986 - NASA/W. Liller
Foto: O cometa Halley fotografado em 8 de março de 1986 – NASA/W. Liller

O cianeto de hidrogênio, conhecido pela sigla HCN, pode participar da formação de açúcares, gorduras e componentes do DNA e do RNA, moléculas centrais para os seres vivos. Cometas carregam essa e outras substâncias orgânicas, e a ideia de que impactos ocorridos há bilhões de anos ajudaram a fornecer matéria-prima para a química que antecedeu a vida é discutida há décadas. O novo trabalho testou um mecanismo específico dessa hipótese: a chegada de grandes quantidades de HCN intacto à superfície terrestre.

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Universidade de Cambridge: velocidade e ângulo do impacto afetam a sobrevivência da molécula

Nas simulações, os cometas costumam atingir a Terra em velocidade alta e em ângulos muito inclinados, condições que favorecem a destruição do HCN. Segundo os pesquisadores, o calor e a pressão gerados pelo impacto podem destruir parte da molécula antes que ela chegue ao solo. Os autores também apontam que, mesmo quando sobrevive ao choque, o HCN pode ser rapidamente diluído pela água presente no ambiente, o que reduz ainda mais o tempo disponível para reações químicas relevantes.

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Condições que o HCN precisaria cumprir para chegar à superfície

  • Atravessar a atmosfera sem ser destruído pela passagem do cometa.
  • Atingir a Terra em velocidade favorável.
  • Atingir a Terra em ângulo favorável.
  • Resistir ao calor e à pressão gerados pelo impacto.
  • Não ser diluído pela água do ambiente após a chegada.

Mais da metade das simulações não entregou a molécula

Mesmo em condições escolhidas para favorecer a hipótese, mais da metade das simulações não registrou nenhum impacto capaz de entregar o HCN na concentração analisada pelos autores. O resultado mostra que a entrega em grandes quantidades não seria um evento comum, e sim o resultado de uma combinação muito específica de fatores. Para os pesquisadores, essa raridade é o ponto central do estudo, mais do que a impossibilidade absoluta de o composto chegar à Terra.

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Cometas podem ter contribuído de outras formas, dizem autores

Os próprios resultados, porém, não significam que os cometas não tenham contribuído de nenhuma forma para a origem da vida. O estudo se concentra principalmente na entrega direta e intacta de HCN em grandes concentrações. Os autores reconhecem que não é possível excluir completamente a possibilidade de que algum impacto particularmente favorável tenha conseguido levar a molécula à Terra. Segundo a análise de uma publicação especializada, outras moléculas orgânicas transportadas pelos cometas também podem ter participado da química prebiótica.

Universidade de Cambridge: especialista espanhol alerta contra interpretação extrema do estudo

O astrobiólogo César Menor Salván, professor da Universidade de Alcalá, na Espanha, afirma que o trabalho não demonstra que os cometas não tiveram participação no surgimento da vida. Segundo ele, o estudo calcula que um mecanismo específico, a entrega direta de grandes quantidades de HCN intacto, seria pouco provável. “Não devemos confundir a baixa probabilidade de um mecanismo particular com a ausência de uma contribuição cometária para a origem da vida”, afirmou ao ser ouvido por uma entidade espanhola de divulgação científica. Menor Salván ressalta ainda que os cometas carregam várias outras substâncias orgânicas e que os próprios impactos podem desencadear reações químicas e criar ambientes favoráveis a processos anteriores ao surgimento da vida.

Jesús Martínez Frías vê limites nas conclusões do estudo

O geólogo planetário e astrobiólogo Jesús Martínez Frías, do Instituto de Geociências da Espanha, fez avaliação semelhante. Para ele, o estudo apresenta simulações rigorosas, mas suas conclusões não devem ser extrapoladas para toda a possível participação dos cometas. Ele destaca que a pesquisa se concentra no HCN e não avalia de forma ampla outros compostos orgânicos nem o papel da água transportada por esses corpos.

Marte aparece como alvo mais favorável que a Terra nas simulações

Os pesquisadores também encontraram diferenças entre os planetas. Segundo a reportagem base, nas simulações Marte teria sido um alvo muito mais favorável do que a Terra para a chegada de HCN intacto por cometas, principalmente por causa de sua atmosfera mais fina e das menores velocidades dos impactos. Os autores, porém, afirmam que isso não significa que a vida tenha surgido em Marte, já que as simulações avaliam apenas uma etapa específica da química que poderia anteceder a vida.

Por que os cometas continuam no centro do debate sobre a origem da vida

A origem da vida ainda é uma das grandes questões em aberto da ciência. Moléculas necessárias para as primeiras reações químicas podem ter sido produzidas na própria Terra ou trazidas do espaço por cometas, asteroides e partículas de poeira, e o peso de cada uma dessas fontes ainda é discutido. Para os autores do novo estudo, a chegada intacta de grandes quantidades de HCN por cometas teria sido extremamente rara. Isso não elimina outras possibilidades, mas indica que a origem da vida provavelmente não pode ser explicada por um único tipo de impacto ou por uma única molécula.

Hipótese sobre cometas e moléculas vem do século passado

Desde o século passado, a hipótese de que cometas trouxeram moléculas para a origem da vida é discutida. Um dos marcos citados é o trabalho do bioquímico Joan Oró, que sintetizou adenina a partir de HCN em trabalhos da década de 1960. Historicamente, os cientistas também acreditavam que os cometas eram importantes para a origem da vida por carregarem moléculas contendo carbono e nitrogênio.

Horário, local e publicação do estudo de Cambridge

  • Revista: Scientific Reports
  • Instituição: Universidade de Cambridge, Reino Unido
  • Autor do estudo citado nesta reportagem: Richard Anslow
  • Molécula analisada: cianeto de hidrogênio (HCN)
  • Publicação desta reportagem: 28 de outubro de 2026, 12:00 (horário de Brasília)

Próximos passos da equipe ainda não são conhecidos

Não há informação sobre novos estudos planejados pela equipe de Cambridge para aprofundar o tema. Até agora, os resultados se limitam às simulações do HCN e à análise de cenários de entrega direta da molécula por cometas, sem medições de outros compostos orgânicos nem de outras formas de chegada à Terra.

Luís Henrique Costa é jornalista formado pela FMU, editor-chefe e fundador do Mix Vale, portal de notícias em atividade desde 2013. Responde pela direção editorial do veículo, que cobre Brasil e mundo em economia, benefícios sociais, esportes, tecnologia, ciência e entretenimento. Atua na área há mais de 15 anos e lidera uma equipe de cerca de 15 colaboradores.

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