Aromatizante de baunilha de cigarros eletrônicos pode comprometer embriões, alerta estudo

Por 5 min de leitura
vaper cigarro eletronico fumante cigarro pulmao Foto: sergey kolesnikov/shutterstock.com

Um estudo recente conduzido pela Universidade da Califórnia – Riverside (UCR) indicou que o vanillin, um aromatizante popular em cigarros eletrônicos, pode afetar o desenvolvimento embrionário humano em suas fases iniciais. A pesquisa, divulgada em 28 de agosto de 2026, sugere que mesmo em concentrações consideradas baixas, a substância é capaz de fazer com que células-tronco embrionárias percam sua capacidade de se desenvolver normalmente, direcionando-as para a formação de apenas certos tipos de tecido.

Pesquisa laboratorial aponta riscos do vanillin em células embrionárias

A investigação, liderada por Prue Talbot, professora da divisão de pós-graduação no Departamento de Biologia Celular e de Sistemas Moleculares da UCR, foi realizada em laboratório utilizando células-tronco embrionárias humanas. Essas células são semelhantes às encontradas em embriões humanos com cerca de três semanas de desenvolvimento. Os cientistas ressaltam que, embora os resultados sejam significativos, eles não provam que os mesmos efeitos ocorram diretamente em mulheres grávidas ou em embriões em desenvolvimento.

O objetivo da equipe era compreender como os produtos químicos presentes nos aerossóis de vape poderiam influenciar o desenvolvimento humano muito precoce e quais tipos de danos celulares poderiam ser gerados. O foco no vanillin deve-se à sua frequência de uso e altas concentrações em fluidos de e-cigarettes, além do conhecimento de que células embrionárias possuem um canal chamado TRPV4 em suas superfícies, que provavelmente interage com o vanillin.

Como a substância afeta a capacidade de desenvolvimento das células

Em experimentos de laboratório, Talbot e a cientista Shabnam Etemadi expuseram células-tronco embrionárias humanas a diversas concentrações de vanillin. Descobriram que concentrações micromolares eram letais para as células, enquanto as nanomolares faziam com que perdessem a pluripotência — a habilidade de se transformar em praticamente qualquer tipo de célula do corpo.

As células-tronco embrionárias, quando perdem a pluripotência devido ao vanillin, diferenciavam-se em endoderma, em vez de ectoderma ou mesoderma. Essas três camadas são cruciais para a formação completa de um embrião saudável:

  • Endoderma: Tecido embrionário que origina o revestimento do intestino e os tecidos respiratórios.
  • Ectoderma: Fundamental para o desenvolvimento do sistema nervoso.
  • Mesoderma: Essencial para a formação de muitos outros tecidos, incluindo músculos.

A alteração forçada para a formação exclusiva de endoderma é potencialmente grave e poderia impedir o desenvolvimento normal de um embrião. A equipe ainda identificou que o bloqueio do canal TRPV4 impediu o vanillin de causar esses efeitos, indicando que este canal é o mecanismo pelo qual a substância atua nas células.

Implicações para gestantes e dificuldade em conceber

Os dados sugerem que concentrações nanomolares de vanillin podem atingir o embrião em mulheres grávidas que utilizam vapes. Ao se ligar ao canal TRPV4 na superfície das células embrionárias, o vanillin provoca um rápido influxo de cálcio, um importante sinalizador molecular. Este, por sua vez, ativa eventos que resultam na perda de pluripotência e na diferenciação incorreta das células-tronco embrionárias.

Essas descobertas oferecem uma possível explicação para as ligações já observadas entre o uso de vapes, a dificuldade em engravidar e abortos espontâneos. A professora Talbot aconselha que as mulheres devem ser cautelosas e buscar orientação médica para evitar o uso de cigarros eletrônicos durante a gravidez, especialmente se enfrentam problemas de concepção ou histórico de abortos. Ela enfatiza que as etapas pré-natais do desenvolvimento são geralmente as mais sensíveis a produtos químicos ambientais.

Apelo por novas políticas e divulgação de ingredientes

Atualmente, muitas mulheres não têm conhecimento exato sobre os produtos químicos contidos nos vapes. A pesquisa aponta para a necessidade de que as políticas regulatórias, frequentemente baseadas em dados de adultos, considerem os impactos em estágios de desenvolvimento mais sensíveis.

Os pesquisadores sugerem que os órgãos reguladores deveriam exigir que os fabricantes de cigarros eletrônicos divulguem os ingredientes em suas embalagens. Ao estabelecer diretrizes para o uso e distribuição de e-cigarettes, seria prudente avaliar como esses produtos podem prejudicar os nascituros.

Estudos futuros buscam entender outros compostos dos vapes

A equipe da UCR já havia investigado o mentol, outro aromatizante de e-cigarettes, e concluiu que ele contribuía para doenças respiratórias em humanos. Agora, estão direcionando seus esforços para estudar o WS-23, um produto químico sintético de resfriamento muito utilizado em vapes, e como tanto o mentol quanto o WS-23 afetam a diferenciação de células embrionárias.

É importante ressaltar que o estudo atual não avalia os efeitos da exposição repetida ou cumulativa ao vanillin ao longo de dias, semanas, meses ou anos, um fator que, segundo a professora Talbot, poderia resultar em impactos ainda maiores.

Janderson Luiz é colaborador da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2024. Formação: Atleta Profissional de Futebol

Notícias relacionadas