Um estudo publicado em 2026 avaliou o uso de inteligência artificial com visão computacional para orientar exercícios de reabilitação de dor no ombro em casa. A pesquisa acompanhou 46 adultos com dor relacionada ao manguito rotador e testou se o acréscimo de um aplicativo digital ao tratamento convencional melhora indicadores de dor e função.
Os participantes tinham idade média de 59 anos. Eles foram divididos em dois grupos de 23 pessoas e seguidos por 12 semanas. Um grupo recebeu fisioterapia convencional. O outro fez o mesmo tratamento associado ao aplicativo RehBody, que usa a câmera frontal de celular ou computador para analisar os movimentos e oferecer feedback em tempo real.
A pesquisa foi conduzida no serviço de reabilitação e fisioterapia do Hospital Universitario Virgen Macarena, em Sevilha, na Espanha. Trata-se de ensaio clínico randomizado, controlado, de centro único e com avaliadores cegos. Os desfechos foram medidos no início e nas semanas 2, 4 e 12.
Resultados do estudo com 46 pacientes e o aplicativo RehBody
A redução da dor superou a diferença mínima clinicamente importante de 1,3 ponto na escala numérica de dor nas semanas 4 e 12. As diferenças entre os grupos favoreceram o grupo com o aplicativo nas semanas 2 e 4, com médias de -0,7 e -1,01 ponto, respectivamente. A função do membro superior melhorou mais na semana 4, com diferença média de -7,3 pontos no questionário QuickDASH.
As crenças de evitação ao medo, medidas pelo FABQ, diminuíram mais no grupo experimental na semana 12, com diferença média de -7,6 pontos. Após a intervenção, menos participantes do grupo com o aplicativo precisaram de cuidados de saúde adicionais: 3 contra 10 no grupo controle.
Os pesquisadores recrutaram 76 pacientes entre março e maio de 2025. Desses, 46 atenderam aos critérios e aceitaram participar. O acompanhamento terminou em setembro de 2025. A análise seguiu o princípio de intenção de tratar.
Como a visão computacional analisa os exercícios em casa
O aplicativo RehBody identifica pontos de referência no corpo por meio da câmera. Ele orienta a execução dos exercícios, reconhece a forma e o momento das repetições e registra parâmetros como amplitude de movimento e adesão. Não exige sensores extras ou equipamentos especiais, apenas o dispositivo que o paciente já possui.
A ferramenta foi desenvolvida para profissionais de saúde prescreverem e monitorarem programas de exercício terapêutico. Os profissionais acompanham o desempenho pelo painel e podem ajustar o plano. O estudo destaca que o exercício terapêutico é tratamento de primeira linha para dor relacionada ao manguito rotador, mas a adesão a programas domiciliares costuma ser limitada pela falta de supervisão.
Avaliação da Sociedade Brasileira de Cirurgia do Ombro e Cotovelo
Eduardo Malavolta, presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia do Ombro e Cotovelo (SBCOC), comentou as possibilidades da tecnologia. “A inteligência artificial pode ser uma ferramenta interessante para ampliar o acompanhamento do paciente durante a reabilitação. Ao utilizar a câmera para analisar a execução dos exercícios e oferecer feedback em tempo real, a tecnologia pode contribuir para que o paciente tenha mais segurança ao realizar os movimentos em casa e facilitar o acompanhamento entre as consultas ou sessões de fisioterapia”, afirmou.
Malavolta reforçou o papel complementar da ferramenta. “É importante evitar que o paciente use a inteligência artificial para tentar tratar sozinho uma situação que deveria ser avaliada por um profissional. A mensagem que precisamos passar é de equilíbrio entre inovação e segurança, entendendo a IA como uma ferramenta complementar, e não como substituta do médico ou do fisioterapeuta. O futuro não é IA no lugar do profissional, mas profissional utilizando IA para cuidar melhor do paciente.”
Limites e cuidados com o uso da tecnologia
A dor no ombro pode ter causas diferentes. O sintoma isolado não define o diagnóstico. A avaliação individualizada, com histórico, exame físico e, quando indicado, exames de imagem, continua necessária para orientar o tratamento.
O aplicativo não deve ser usado para o paciente diagnosticar a própria condição ou escolher exercícios sem orientação. Ferramentas digitais podem fornecer informações incompletas ou desatualizadas. A escolha dos exercícios e o acompanhamento da evolução devem permanecer sob responsabilidade de profissionais de saúde.
Dois dos autores do estudo, Alejandro Suero-Pineda e Olga Villar-Alises, têm vínculo com a empresa que desenvolveu o RehBody. Os demais autores declararam ausência de conflito de interesse. O ensaio foi registrado na Open Science Framework e aprovado pelo comitê de ética do hospital.
Contexto da dor relacionada ao manguito rotador
A dor relacionada ao manguito rotador é uma das queixas musculoesqueléticas mais comuns na atenção primária. Ela afeta estruturas que estabilizam e movimentam o ombro e pode limitar atividades do dia a dia. Diretrizes clínicas recomendam o exercício terapêutico estruturado como base do tratamento conservador.
A adesão a programas feitos em casa costuma ser um desafio. Barreiras incluem falta de feedback imediato, dificuldade de progressão e ausência de monitoramento objetivo. Tecnologias de telereabilitação e visão computacional buscam reduzir essas limitações ao oferecer orientação em tempo real e dados de desempenho ao profissional.
O estudo espanhol indica que o acréscimo do aplicativo ao tratamento convencional pode melhorar a dor em alguns momentos do acompanhamento, favorecer a função do membro superior e reduzir a necessidade de cuidados adicionais após as 12 semanas. Os resultados se referem a pacientes com dor relacionada ao manguito rotador acompanhados em centro hospitalar específico.
A publicação ocorreu na revista Musculoskeletal Science and Practice, volume 85, artigo 103626, em outubro de 2026. Os autores principais incluem Olga Villar-Alises, Celia Cónstenla Cortés, Manuel Rodríguez-Piñero Durán, Pablo Rodríguez Sánchez-Laulhé, Javier Martinez-Calderon e Alejandro Suero-Pineda.
Para quem apresenta dor no ombro, a orientação profissional permanece o ponto de partida. A avaliação define se o exercício é adequado, quais movimentos devem ser priorizados e como acompanhar a evolução. Recursos digitais podem complementar esse plano quando prescritos e monitorados por fisioterapeutas ou médicos.
O aplicativo registra o desempenho e permite que o profissional veja adesão e qualidade dos movimentos sem necessidade de sessão presencial a cada exercício. Essa característica busca preencher o intervalo entre consultas ou sessões de fisioterapia.
A pesquisa não avaliou o uso isolado da ferramenta sem acompanhamento profissional. Todos os participantes receberam o tratamento convencional. O grupo experimental teve o aplicativo como adição.
A SBCOC reforça que soluções desse tipo têm utilidade quando integradas ao plano de reabilitação indicado por profissionais. O uso isolado, sem avaliação prévia, pode levar a orientações inadequadas para a condição específica de cada pessoa.
Os resultados de redução de dor e função foram observados em pontos específicos do seguimento. A diferença mínima clinicamente importante de 1,3 ponto na escala de dor foi superada nas semanas 4 e 12 no grupo com o aplicativo. A necessidade de cuidados adicionais após a intervenção foi menor nesse grupo.
A visão computacional do RehBody funciona com a câmera frontal comum. O sistema identifica segmentos corporais, fornece guias de execução e quantifica parâmetros do movimento. Os dados ficam disponíveis para o profissional que prescreveu o programa.
O estudo foi realizado em ambiente hospitalar de reabilitação. A generalização para outros contextos e populações exige cautela. A idade média dos participantes foi de 59 anos, e a condição avaliada foi dor relacionada ao manguito rotador.
Pacientes com outras causas de dor no ombro, como artrose avançada ou instabilidade, não foram o foco da pesquisa. A avaliação individual continua necessária para determinar a indicação de exercício e o tipo de acompanhamento.
O acompanhamento profissional permite ajustar carga, amplitude e progressão conforme a resposta de cada pessoa. O aplicativo fornece dados objetivos que podem auxiliar nessa decisão, mas não substitui o julgamento clínico.
A publicação do estudo em 2026 traz dados de um ensaio randomizado com 46 participantes. Os números de diferença entre grupos, os questionários utilizados e a comparação de cuidados adicionais estão descritos no resumo e nas seções disponíveis da revista.
Para profissionais e pacientes, o ponto central é a integração. A tecnologia com câmera e inteligência artificial pode ampliar o monitoramento dos exercícios feitos em casa. A definição do plano, o diagnó
