Pesquisadores da Universidade Monash, em Melbourne, na Austrália, descobriram que o uso diário de 100 mg de aspirina foi associado a uma redução relativa de cerca de 70% no risco de demência entre idosos com um perfil genético específico ligado à contagem de plaquetas. No mesmo subgrupo, porém, o medicamento mais que dobrou a ocorrência de sangramentos graves, resultado que impede a recomendação do fármaco para prevenir o declínio cognitivo. O estudo completo foi publicado na revista científica Alzheimer’s & Dementia em 24 de setembro de 2026.
A investigação analisou informações genéticas de 13.541 participantes do ensaio clínico ASPREE (sigla em inglês para Aspirina na Redução de Eventos em Idosos), que comparou a administração diária do remédio com um placebo, substância sem efeito ativo. O autor principal do estudo e pesquisador da Escola de Saúde Pública e Medicina Preventiva da Universidade Monash, Peter D. Fransquet, avaliou o impacto da descoberta em comunicado divulgado em 29 de setembro de 2026. “Ensaios anteriores descobriram que a aspirina não prevenia a demência quando todos eram considerados em conjunto. Nossas descobertas sugerem que pode haver mais nessa história. Em pessoas com esse perfil genético específico, vimos substancialmente menos casos de demência entre aquelas que tomavam aspirina. Isso levanta a possibilidade de que a genética possa um dia nos ajudar a identificar quem pode se beneficiar de um tratamento preventivo, em vez de adotar uma abordagem única para todos”, afirmou, em tradução livre.
Como o escore genético de plaquetas alterou o efeito da aspirina
A queda nos diagnósticos de demência concentrou-se nos participantes situados nos 20% superiores (o quintil mais alto) do escore genético de contagem de plaquetas, identificado pelo código técnico PGS003548. As plaquetas são fragmentos celulares presentes no sangue que atuam diretamente na formação de coágulos. Essa pontuação avalia um conjunto de variações herdadas no DNA associadas à quantidade desses componentes, o que significa que o resultado diz respeito a uma predisposição genética do indivíduo, e não à contagem simples observada em um exame de sangue de rotina.
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Para chegar a esse recorte específico, a equipe científica rastreou inicialmente 5.182 escores de risco poligênico (PGS, medida que calcula a tendência genética a certas condições a partir de múltiplos pontos do DNA) e submeteu 1.848 deles à análise final após etapas de controle de qualidade. Os modelos estatísticos foram ajustados para levar em conta variáveis como idade, sexo, ancestralidade e o status da apolipoproteína E, uma proteína ligada ao transporte de colesterol e ao risco de doença de Alzheimer. O artigo científico havia sido indexado eletronicamente na base médica PubMed em 15 de setembro de 2026, antes da publicação na edição da revista.
Números da comparação entre aspirina e placebo no grupo estudado
Dentro da faixa dos 20% com maior pontuação genética para plaquetas, tanto a proteção aparente contra o declínio cognitivo quanto o perigo de hemorragias apresentaram variações na mesma proporção absoluta quando confrontados com o grupo que ingeriu placebo. Os dados exatos apurados pela Universidade Monash no subgrupo genético mostram o equilíbrio entre o benefício observado e o efeito adverso:
- Dose avaliada no ensaio: 100 mg diários de aspirina contra placebo.
- Incidência de demência: 1% dos idosos que tomaram aspirina desenvolveram a condição, contra 3,3% dos que receberam placebo (redução absoluta de 2,3 pontos percentuais).
- Redução relativa do risco de demência: cerca de 70% (72% na razão de risco estatística, com índice HR de 0,28 e intervalo de confiança de 95% entre 0,15 e 0,52).
- Incidência de sangramento grave: 4,4% dos usuários de aspirina sofreram hemorragias severas, contra 2,1% dos que tomaram placebo (aumento absoluto de 2,3 pontos percentuais).
- Aumento relativo do risco de sangramento: mais que o dobro no grupo medicado (índice HR de 2,13 e intervalo de confiança de 95% entre 1,36 e 3,34).
- Balanço por 1.000 pessoas-ano: o uso do fármaco representou cerca de cinco casos a menos de demência, mas gerou cinco eventos adicionais de sangramento grave.
Resultados anteriores do ensaio ASPREE em 19.114 idosos
Os dados utilizados na pesquisa genética derivam do ensaio clínico original ASPREE, conduzido entre os anos de 2010 e 2017 com um total de 19.114 idosos saudáveis residentes na Austrália e nos Estados Unidos. Os critérios de inclusão exigiam participantes com 70 anos ou mais, ou a partir de 65 anos no caso de minorias étnicas norte-americanas, todos sem histórico prévio de doenças cardiovasculares, demência ou incapacidade física no início do acompanhamento médico. Quando os resultados gerais desse levantamento amplo foram divulgados em 2018, a conclusão foi que a aspirina não prevenia a demência ao se avaliar a população inteira de forma conjunta, sem a separação por perfis de DNA.
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Riscos da aspirina e atendimento para demência no SUS
Diante da equivalência entre a queda de casos cognitivos e o salto nas hemorragias, os pesquisadores classificam a análise atual como exploratória e geradora de hipóteses, sem aplicação clínica imediata. O estudo alerta que ninguém deve iniciar o uso de aspirina por conta própria visando evitar a demência. A condição é caracterizada por um conjunto de sinais e sintomas que incluem esquecimentos frequentes, repetição de perguntas, perda de compromissos e dificuldade para recordar nomes.
No Brasil, dados do Ministério da Saúde indicam que até 45% dos quadros de demência podem ser prevenidos ou retardados por meio de cuidados com a saúde, e o diagnóstico precoce permite terapias que desaceleram os sintomas e aliviam a sobrecarga das famílias. O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece diagnóstico e tratamento multidisciplinar gratuito para pacientes com demências, incluindo a doença de Alzheimer, por meio das Unidades Básicas de Saúde (UBS) e de centros de referência especializados. Para que a descoberta australiana possa se transformar em orientação médica no futuro, o próximo passo apontado pelos cientistas da Universidade Monash é validar os resultados de forma independente em outras populações e conduzir um novo ensaio clínico focado exclusivamente em idosos com esse perfil genético de plaquetas.
