A queda na vacinação contra o sarampo em crianças menores de cinco anos após a pandemia de Covid-19 provocou um aumento global de 40% nos casos da doença entre 2019 e 2023. Os registros estimados saltaram de 11,1 milhões para 15,6 milhões no período, enquanto as mortes na mesma faixa etária subiram 12%, passando de 105 mil para 118 mil no ano de 2023.
Os dados fazem parte do projeto Global Burden of Diseases, Injuries, and Risk Factors Study (GBD) 2023, levantamento epidemiológico que analisou 204 países e territórios entre 1990 e 2023. Benn Sartorius, professor associado do Frazer Institute da Universidade de Queensland, na Austrália, e autor principal da pesquisa, afirmou que a redução das coberturas vacinais impulsionou o avanço das infecções: “Isso contribuiu para um ressurgimento global do sarampo em crianças pequenas”, disse, em tradução livre.
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Dados e financiamento do estudo global sobre o sarampo
- Abrangência: 204 países e territórios avaliados entre os anos de 1990 e 2023.
- Financiamento: Fundação Bill & Melinda Gates e Gavi, the Vaccine Alliance (aliança global para vacinas).
- Taxa de mortalidade infantil em 2023: 18,4 mortes por grupo de 100 mil crianças de até cinco anos (alta de 20% frente às 15,3 por 100 mil de 2019).
Como funciona o esquema de vacinação contra o sarampo para crianças?
O esquema vacinal para proteger crianças menores de cinco anos contra o sarampo exige duas aplicações: a primeira dose aos 12 meses de idade e um reforço aos 15 meses. Para garantir a imunidade de rebanho e impedir a circulação do vírus, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estabelece a meta de 95% ou mais de cobertura para as duas doses na faixa etária de 1 a 5 anos.
No levantamento global, a cobertura da primeira dose subiu de 67,2% em 1990 para 83,6% em 2019, mas recuou para 81,0% em 2023. A aplicação da segunda dose passou de 14,4% em 1990 para 68,4% em 2019 e chegou a 71,4% em 2023, índice abaixo dos 90% previstos na Agenda de Imunização 2030 da OMS. A Australásia (região que engloba a Austrália e a Nova Zelândia) foi exceção e atingiu 96% de cobertura na segunda dose em 2023.
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Apenas no período da pandemia, 48 milhões de crianças deixaram de ser vacinadas no mundo, segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). Os cientistas apontam que a queda reflete a interrupção de serviços sanitários, fragilidades nos sistemas de saúde, áreas em conflito e perda de confiança nos imunizantes. Segundo Sartorius, o estudo mostra que uma ação urgente é necessária para restaurar os programas de imunização de rotina.
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Queda de 90% nas mortes por sarampo até 2019 e surtos na Europa e nos EUA
O avanço recente reverteu três décadas de controle epidemiológico: entre 1990 e 2019, os casos globais haviam caído cerca de 80% (de 52,2 milhões para 11,1 milhões), e a taxa de mortalidade recuou 90%, saindo de 148 para 15,3 mortes por 100 mil crianças. Na divisão regional entre 2019 e 2023, a África Subsaariana teve alta de 57,3% em casos e 13,5% em mortes; o Sudeste Asiático registrou mais 39,5% em casos e 27,2% em mortes; e o Norte da África somou 37,4% a mais de casos e 54% de mortes.
Nações de alta renda também enfrentam o retorno do vírus, com países europeus como Polônia, França, Alemanha e Itália acumulando mais de 127 mil casos nos últimos anos, a maior carga em mais de 25 anos. Nos Estados Unidos, que vivem em 2026 o pior surto da doença em décadas e onde o presidente Donald Trump escolheu em 2024 Robert F. Kennedy Jr. para secretário de Saúde, o total de licenças médicas para desobrigar a vacina subiu de 3,6% para mais de 5% em 2023, com 17 estados permitindo isenções.
Denise Garrett, epidemiologista e vice-presidente do Sabin Vaccine Institute, alertou sobre a velocidade de transmissão do vírus. “O sarampo, quando a cobertura vacinal cai muito abaixo dos 95% [preconizados], é muito difícil controlar. Uma pessoa infectada pode infectar outras 15 pessoas, por isso é importante que a gente olhe a situação com muita preocupação”, disse. Para ela, “qualquer governo que enfraqueça os programas de imunização ou legitime a desinformação sobre vacinas estará aumentando o risco de surtos e colocando em perigo conquistas de saúde pública que levaram décadas para serem alcançadas”.
No Brasil, o país obteve o certificado de eliminação da doença pela Organização Pan-Americana da Saúde (Opas/OMS) em 2016, perdeu o título em 2019 e teve quatro vacinas infantis abaixo da meta entre 2020 e 2022. A retomada dos índices a partir de 2023 levou ao cumprimento da meta em 15 dos 16 imunizantes infantis no fim de 2024, ano em que o Brasil recuperou a certificação após não ter casos autóctones (de transmissão local) desde 2022, embora 41 casos registrados em São Paulo em 2026 mantenham o alerta sanitário.
