A promotora britânica Riel Karmy-Jones abriu nesta quarta-feira (14) o julgamento do ator e comediante Russell Brand na Corte da Coroa de Southwark, em Londres, na Inglaterra. A representante da acusação descreveu o réu como um predador sexual que teria estuprado ou agredido seis mulheres entre 1999 e 2009.
Karmy-Jones, que detém o título de King’s Counsel (KC, grau conferido a advogados seniores no Reino Unido), declarou ao júri que o comportamento do artista ignorava a recusa das vítimas. “Ele era implacável, calculista, manipulador e, segundo a acusação, era um predador sexual”, disse a promotora. Ela acrescentou que algumas denunciantes resistiram, enquanto outras não tiveram chance de reagir: “Seu desejo, seu forte desejo por algum tipo de contato sexual, era indiscriminado e voraz”.
As sete acusações contra Russell Brand entre 1999 e 2009
De acordo com a promotoria, as seis mulheres denunciantes não se conheciam, nunca se encontraram e apresentaram os relatos de forma independente. Pela legislação do Reino Unido, todas têm direito a anonimato vitalício. Os supostos episódios ocorreram em um quarto de hotel, ambientes de trabalho, no cubículo do banheiro de um bar e na casa do réu, período em que ele passava do circuito de comédia stand-up para programas de rádio, televisão e filmes em Hollywood. Colegas da época relataram que o comediante se gabava de querer dormir com 5.000 mulheres ao longo da vida e dizia que era necessário falar a elas o que precisavam ouvir.
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O primeiro episódio relatado pela acusação teria acontecido em 1999, na cidade inglesa de Bournemouth, onde o artista fazia um espetáculo paralelo à conferência anual do Partido Trabalhista. Na ocasião, uma espectadora que havia presumido que o comediante fosse gay o convidou até seu quarto de hotel para conversar sobre uma causa que defendia, local onde teria ocorrido o estupro. Nos anos seguintes, as denúncias envolveram mulheres que cruzaram com o apresentador em ambientes profissionais da indústria de entretenimento e em momentos de lazer na capital britânica.
Além do caso de Bournemouth, a acusação detalhou ao tribunal outros cinco episódios ocorridos na década seguinte:
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- 2001: tentativa de arrastar uma funcionária da emissora MTV Europe para um cubículo do banheiro masculino do local de trabalho;
- 2004: estupro oral de uma mulher dentro do cubículo do banheiro de um bar em Londres, ocasião em que teria dito para a vítima não ser “estraga-prazeres”;
- 2004 ou 2005: agressão sexual contra uma profissional de uma empresa de mídia dentro do escritório dela;
- 2009: estupro anal de uma fã na residência do ator, no bairro londrino de Hampstead, logo após os dois terem mantido relações sexuais consensuais depois de se conhecerem em um show no Hammersmith Apollo;
- 2009: agressão contra uma funcionária da emissora britânica Channel 4, quando o apresentador teria exigido uma massagem e pressionado o rosto contra a região genital da mulher.
Sobre o episódio envolvendo a fã em 2009, a promotoria apresentou aos jurados uma troca de mensagens de texto registrada no ano seguinte, após um encontro casual entre os dois na Escócia. Na conversa, a mulher escreveu que o ator a havia tratado “como um animal”, ao passo que ele respondeu pedindo desculpas.
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Defesa de Russell Brand e postura na polícia
Aos 51 anos, o réu responde em liberdade sob fiança a três acusações de estupro, três de agressão sexual e uma de atentado ao pudor (importunação sexual). Ele se declarou inocente de todas as sete imputações criminais e terá sua defesa formal apresentada em uma etapa posterior das audiências.
Durante a fase de interrogatório policial, o comediante recusou-se a responder às perguntas dos investigadores. Ele entregou declarações por escrito nas quais afirmou não se lembrar das mulheres nem dos incidentes citados, negou qualquer ato sem consentimento e admitiu apenas ter feito sexo em banheiros durante festas.
O ator chegou ao tribunal londrino em 14 de outubro de 2026 acompanhado de sua esposa, Laura Gallacher. Antes do início da sessão, ele falou rapidamente sobre o caso: “Hoje me sinto abençoado. É claro que estou preocupado, mas tenho esperança de que esse processo leve a bons resultados para todos os envolvidos.”
Seleção do júri na Corte da Coroa de Southwark e trajetória de Russell Brand
O processo na Corte da Coroa de Southwark é presidido pelo juiz Joel Bennathan (identificado na Justiça britânica como Mr Justice Bennathan). A seleção dos jurados começou na segunda-feira (12) com um grupo inicial de 50 pessoas, e o corpo de jurados definitivo, composto por oito homens, quatro mulheres e um suplente, foi juramentado na terça-feira (13).
Durante a triagem, o magistrado dispensou seis cidadãos que haviam assistido a um documentário exibido pelo Channel 4 ou lido reportagens publicadas em 2023 com alegações de conduta sexual imprópria contra o artista. Bennathan também determinou que os integrantes do conselho de sentença não busquem informações sobre o réu na internet. “Não façam nenhuma pesquisa. Só o céu sabe o que há lá fora. Se quiserem, podem dar uma olhada, mas somente depois que tiverem entregado seus vereditos”, declarou o juiz, em tradução livre.
Ex-marido da cantora norte-americana Katy Perry, com quem foi casado entre 2010 e 2012, Brand ganhou projeção no Reino Unido nos anos 2000 ao comandar atrações na MTV, um programa derivado do Big Brother no Channel 4, uma faixa na rádio BBC Radio 2 e cerimônias como o Brit Awards de 2007. No cinema norte-americano, atuou nas produções “Ressaca de Amor”, “O Pior Trabalho do Mundo” e “Rock of Ages”. Nos últimos anos, o britânico deixou a mídia tradicional, mudou-se para o estado da Flórida, nos Estados Unidos, e passou a produzir conteúdo nas redes sociais sobre bem-estar, teorias da conspiração e devoção cristã. O julgamento em Londres tem duração estimada de seis semanas e pode se estender até dezembro de 2026.
