O foguete Starship, desenvolvido pela SpaceX para transportar pessoas e cargas à Lua e a Marte, alcançou a órbita terrestre pela primeira vez no 14º voo de teste realizado em 28 de setembro de 2026 a partir da base Starbase, no estado do Texas, nos Estados Unidos. Apesar de o lançamento ter colocado 26 satélites Starlink V3 no espaço no mesmo ano em que o projeto completou uma década desde o anúncio original feito pelo diretor-executivo e fundador da empresa, Elon Musk, em 2016, a primeira viagem ao planeta vermelho ficou para a janela de transferência orbital entre o fim de 2028 e o início de 2029.
A oportunidade de tentar um envio rumo a Marte em outubro de 2026 deixou de ser viável porque a fabricante ainda não realizou a demonstração de transferência de propelente criogênico em grande escala entre veículos no espaço, nem concluiu os sistemas de suporte à vida para missões tripuladas. “A Starship ainda tem capacidades importantes para demonstrar antes de poder realizar as missões completas previstas para a Lua e Marte”, afirmou, em tradução livre, Joseph Gonzalez, professor de engenharia aeroespacial da Grainger College of Engineering, da Universidade de Illinois.
Manobra de reabastecimento da Starship no espaço e o desempenho do 14º voo
No 14º teste integrado (chamado de Flight 14), decolado às 7h48 no horário local do Texas (12h48 no horário universal coordenado, UTC), o propulsor Super Heavy acionou todos os seus 33 motores Raptor 3 na saída da plataforma, executou a manobra de separação a quente técnica em que o estágio superior liga os motores antes de se soltar totalmente do propulsor e amerissou nas águas do Golfo após a queima de pouso. Durante a subida do estágio superior, batizado de Ship, um dos seis motores Raptor desligou antes do previsto, mas o veículo compensou a perda mantendo os cinco propulsores restantes acesos por mais tempo e acionou um motor Raptor adaptado ao nível do mar para concluir a inserção orbital.
Para ir além da órbita baixa da Terra, a arquitetura desenhada pela SpaceX exige que naves-tanque abasteçam um depósito de combustível em órbita, estrutura que funcionará como um posto de abastecimento espacial para que a própria Starship reabasteça antes de partir rumo à superfície lunar ou marciana. Segundo o professor Joseph Gonzalez, transferir grandes volumes de propelentes mantidos em temperaturas extremamente baixas sob condições de microgravidade é um dos obstáculos técnicos menos reconhecidos do programa.
A expectativa é que essa operação de passagem de combustível entre veículos ocorra nos voos de teste 15 e 16 da Starship. As duas missões estavam previstas inicialmente para meados e fim de outubro de 2026, mas escorregaram para meados ou fim de novembro de 2026, ainda sem confirmação pública de datas definitivas por parte da empresa.
Dez anos de evolução da Starship desde o anúncio de Elon Musk em 2016
O desenvolvimento do veículo começou a ser apresentado publicamente em 2016, quando Elon Musk revelou o conceito então denominado Interplanetary Transport System (ITS, ou Sistema de Transporte Interplanetário) durante o Congresso Internacional de Astronáutica, em Guadalajara, no México, prevendo na época uma estrutura feita de fibra de carbono. Em 2019, a companhia mudou o material para o aço inoxidável e iniciou testes de curta distância com protótipos, alcançando o primeiro pouso bem-sucedido em maio de 2021 com o modelo SN15, mesmo mês em que a Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço dos Estados Unidos (NASA) escolheu a espaçonave como módulo de pouso tripulado do programa lunar Artemis.
Os ensaios do conjunto completo, unindo o propulsor Super Heavy ao estágio superior Ship, começaram em abril de 2023 com uma falha poucos minutos após a saída da torre, seguidos por lançamentos em 2023 e 2024 que chegaram ao espaço, mas perderam a nave na reentrada atmosférica. Ainda em 2024, a equipe demonstrou a passagem de oxigênio líquido entre dois tanques internos de uma mesma Ship e, em outubro daquele ano e em janeiro de 2025, capturou o propulsor Super Heavy diretamente nos braços mecânicos da torre de lançamento, antes de enfrentar uma explosão em solo em junho de 2025, retomar os voos bem-sucedidos em agosto, encerrar a versão antiga em outubro de 2025 e estrear a geração V3 em maio e julho de 2026.
Ao avaliar o ritmo da fabricante ao longo da primeira década, o professor da Universidade de Illinois apontou que o método de testes repetidos acelera a coleta de informações de engenharia. “A exploração espacial leva tempo, especialmente quando você está desenvolvendo um sistema de voo espacial humano com esse nível de complexidade. Eles constroem, voam, aprendem, fazem mudanças e voam novamente. Isso cria sucessos e fracassos muito visíveis, mas também permite que os engenheiros acumulem experiência de voo e dados rapidamente”, disse Gonzalez, em tradução livre.
Veja também: Cães de grande porte sofrem envelhecimento acelerado no DNA
Compromissos da Starship com a rede Starlink V3, a Lua e os 456 voos no Texas
Enquanto a janela de baixa energia orbital para Marte que se abre aproximadamente a cada 26 meses não chega e descarta a estimativa feita por Elon Musk em 2025 de que haveria 50% de chance de tentar a viagem em 2026, a função mais imediata do megafoguete concentra-se na expansão comercial da internet via satélite da própria companhia. A rede atual em operação conta com mais de 11 mil satélites de banda larga em órbita, quase todos enviados pelo foguete Falcon 9, mas os novos equipamentos Starlink V3 são maiores e mais pesados, exigindo a capacidade da Starship para alcançar a meta planejada de até 100 mil unidades na futura constelação.
Para Matija Renčelj, analista do Instituto Europeu de Política Espacial (ESPI), a mudança do projeto original de 2016 para o modelo atual acompanha compromissos financeiros e políticos em Washington após a aquisição da empresa de inteligência artificial xAI em fevereiro de 2026 e a oferta pública inicial de ações (IPO, a estreia na bolsa de valores) realizada em junho de 2026. “O ITS era definitivamente uma criatura diferente. Ainda assim, temos de reconhecer duas tendências que atestam tanto a agilidade da SpaceX quanto uma perspectiva cada vez mais voltada para o mercado, em vez de voltada primeiro para a visão”, declarou Renčelj, em tradução livre.
Além da rede de telecomunicações, a fabricante precisa cumprir o cronograma da missão Artemis IV, da NASA, que tem como meta o fim de 2028 para levar astronautas de volta à superfície da Lua após mais de 50 anos, etapa que Gonzalez considera um degrau intermediário mais próximo da Terra para testar equipamentos antes de viagens interplanetárias. Para sustentar essa cadência de operações, foi noticiado nesta quinta-feira (15) que a SpaceX solicitou permissão regulatória para elevar de 25 para até 456 o limite máximo de lançamentos anuais da Starship a partir da base de Starbase, no sul do Texas.
Confira também: Mundos super-habitáveis terão busca espacial a partir de 2027
- 10 anos: tempo decorrido entre a apresentação do projeto original em Guadalajara, em 2016, e o alcance da órbita em 2026.
- 14 voos integrados: total de testes do conjunto completo realizados até a chegada à órbita em 28 de setembro de 2026.
- 33 motores Raptor 3: quantidade de propulsores acionados simultaneamente pelo primeiro estágio Super Heavy na decolagem do 14º voo.
- 26 unidades: total de satélites de nova geração Starlink V3 liberados no espaço durante a 14ª missão.
- Mais de 11 mil a 100 mil satélites: salto entre o tamanho aproximado da frota atual em órbita e o total planejado para a constelação Starlink V3.
- 26 meses: intervalo aproximado entre as janelas favoráveis de lançamento da Terra para Marte, com a próxima abertura entre o fim de 2028 e o início de 2029.
- De 25 para até 456 decolagens por ano: ampliação solicitada pela SpaceX no teto anual de lançamentos da Starship na Starbase.
