O cineasta neozelandês Peter Jackson, diretor da trilogia ‘O Senhor dos Anéis’, e a empresa de biotecnologia Colossal Biosciences compraram em um leilão nos Estados Unidos um raro ovo de moa, ave gigante extinta há cerca de 600 anos. O anúncio oficial da aquisição ocorreu nesta segunda-feira (19), na cidade de Christchurch, na Nova Zelândia. O exemplar será repatriado ao povo indígena Māori Ngāi Tahu e passará por análises genéticas voltadas à tentativa de recriar a espécie.
A apresentação da recuperação do artefato foi feita ao líder indígena do povo Ngāi Tahu — com o título tradicional de Ūpoko de Ngāi Tūāhuriri — e professor de história na Universidade de Canterbury, Te Maire Tau, durante o 11º Encontro Internacional da Sociedade de Paleontologia e Evolução Aviária (SAPE 2026). Para o cofundador e diretor-executivo (CEO) da Colossal Biosciences, Ben Lamm, o retorno do material cumpre uma função histórica e científica. “Para citar Indiana Jones, ‘O lugar disto é em um museu’, um museu em Aotearoa, sob os cuidados do povo cujos ancestrais viveram ao lado dessas aves extraordinárias”, afirmou Lamm, em tradução livre, usando o nome em língua Māori para a Nova Zelândia.
Como o ovo de moa ajudará na recriação genética da espécie?
Os cientistas ligados ao projeto, cuja área técnica na empresa é chefiada pela diretora científica (Chief Science Officer) Beth Shapiro, pretendem aplicar técnicas de imagem não destrutivas e outros métodos laboratoriais para extrair dados genéticos do exemplar sem danificar a peça. O objetivo da equipe é obter informações sobre a linhagem evolutiva e a biologia reprodutiva da moa. Todas as etapas de análise científica e tomada de decisão serão orientadas diretamente pelas lideranças indígenas locais, que detêm a guarda cultural do material.
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Atualmente parcialmente remontado, o ovo passará por um processo de restauração especializada antes de ser exposto. No mundo inteiro, existem menos de 40 ovos de moa completos ou suficientemente inteiros em coleções públicas, sendo que apenas oito deles mantêm ao menos 90% da casca original. “Após a restauração especializada, ele muito provavelmente se tornará apenas o nono ovo de moa quase intacto conhecido — provavelmente um dos cinco exemplares mais bem preservados”, declarou o cineasta e investidor do projeto na Colossal Biosciences, Peter Jackson.
O diretor ressaltou que a parceria científica respeita a soberania dos povos originários sobre os vestígios arqueológicos encontrados no país. “Mais importante ainda, trabalhando com a Colossal e sob a orientação de Ngāi Tahu, podemos devolver este taonga culturalmente significativo aos seus legítimos guardiões, avançar na pesquisa sobre a moa e conectar as gerações futuras com a extraordinária história cultural e natural de Aotearoa”, disse Jackson, utilizando o termo Māori “taonga”, que designa um tesouro ou bem de alto valor cultural.
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Dimensões, valores e datas do ovo de moa recuperado
A peça biológica tem quase o dobro do volume de um ovo de avestruz e apresenta uma estrutura física delicada, o que explica a raridade de exemplares inteiros após seis séculos da desaparição da ave. Os dados técnicos, financeiros e cronológicos da peça comprada nos Estados Unidos reúnem as seguintes marcas:
- Data da descoberta original na Nova Zelândia: 14 de janeiro de 1966.
- Período fora do país de origem: cerca de 60 anos em uma coleção particular norte-americana.
- Data e local do leilão: 12 de junho de 2026, na casa de leilões Artemis Gallery, em Louisville, no estado do Colorado (EUA).
- Valor aproximado pago no arremate: US$ 14.000.
- Dimensões físicas da peça: cerca de 22,2 centímetros de altura (8,75 polegadas) por 17,1 centímetros de diâmetro (6,75 polegadas), com casca de menos de dois milímetros de espessura.
O aporte de US$ 15 milhões da Colossal Biosciences e a extinção das moas
A compra no Colorado faz parte de um projeto iniciado em julho de 2025, quando a Colossal Biosciences incluiu oficialmente a moa gigante em sua lista de espécies-alvo para tentativas de desextinção, ao lado do mamute-lanoso, do dodô, do lobo-terrível e do tigre-da-tasmânia. A iniciativa foi firmada em parceria com o Ngāi Tahu Research Centre, órgão da Universidade de Canterbury, e recebeu um investimento anterior de US$ 15 milhões feito por Peter Jackson e sua parceira, a roteirista e produtora Fran Walsh, que atua como coinvestidora do programa. Até o momento, a empresa de biotecnologia já sequenciou amostras genômicas retiradas do acervo particular de ossos de moa pertencente a Jackson e trabalha no desenvolvimento de ovos artificiais impressos em 3D, além de sistemas de incubação artificial.
Antes da chegada dos caçadores polinésios ao território da Nova Zelândia, por volta do ano 1300 d.C., estima-se que uma população de até 2,5 milhões de moas habitava as ilhas do arquipélago. As aves não tinham capacidade de voo e as maiores espécies do grupo podiam atingir 3,6 metros de altura (12 pés) e pesar 230 quilos (500 libras), mas acabaram extintas há cerca de 600 anos em consequência da caça e da redução de seu habitat natural. Segundo Ben Lamm, o acordo com os descendentes diretos daquela região guia todo o trabalho laboratorial: “Quando lançamos o programa da moa, assumimos um compromisso claro de que a liderança indígena guiaria a ciência e cada decisão em torno do projeto. Garantir e transportar este ovo de volta para sua casa legítima é apenas parte desse compromisso”.
Após a conclusão dos trabalhos iniciais de conservação e catalogação, o artefato será transportado definitivamente para a Ilha Sul da Nova Zelândia, onde ficará sob a guarda direta do povo Māori Ngāi Tahu. A cerimônia oficial de entrega do ovo à comunidade indígena está prevista para dezembro de 2026.
