Um estudo conduzido pelo Instituto de Pesca (IP-APTA) e pela Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos da Universidade de São Paulo (FZEA-USP) comprovou que a truta-arco-íris (Oncorhynchus mykiss) de cor amarela ultrapassa o peso da linhagem selvagem no ponto de abate comercial. No experimento realizado em Campos do Jordão, no interior de São Paulo, e divulgado na quinta-feira, 22 de outubro de 2026, a variante amarela atingiu cerca de 300 gramas no final do ciclo produtivo, superando a variedade comum (parda com pintas pretas) e a albina totalmente branca.
O resultado contraria a regra biológica habitual da criação de peixes, na qual os animais com a coloração original da espécie costumam apresentar maior robustez e crescimento superior aos de indivíduos com mutações genéticas ligadas ao albinismo. “O desempenho do fenótipo amarelo foi uma surpresa, porque o selvagem é normalmente o que cresce mais. Os animais albinos geralmente têm uma menor eficiência na conversão de alimento em músculo e em outros parâmetros. A selvagem até cresceu mais no início do experimento, mas o crescimento desacelerou após 120 dias”, disse Vinicius Vasconcelos Silva, primeiro autor do estudo e pesquisador de doutorado no Instituto de Pesca e na FZEA-USP, em Pirassununga.
A pesquisa faz parte do projeto “Avaliação do crescimento muscular de linhagens de trutas-arco-íris”, coordenado por Vander Bruno dos Santos, pesquisador do Instituto de Pesca, e financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). O artigo científico com os resultados, intitulado “Comparative modeling of growth in rainbow trout (Oncorhynchus mykiss) strains with distinct skin pigmentation using the Gompertz function”, saiu publicado no volume 47 (artigo 103437) da revista científica Aquaculture Reports. Além de Silva e Santos, assinam o trabalho os coautores Marcos Vinícius Bozzo Diório, Antônio Carlos Kida Filho, Carolina Pereira de Morais Faria e Neuza Sumico Takahashi.
Cruzamento em laboratório gerou 8.200 alevinos em Campos do Jordão
Os testes práticos ocorreram no Núcleo Regional de Pesquisa em Salmonicultura Dr. Ascânio de Faria, unidade do Instituto de Pesca instalada em Campos do Jordão, município com clima temperado adequado para o cultivo da espécie. O Instituto de Pesca é um órgão vinculado à Agência Paulista de Tecnologias do Agronegócio (APTA), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo.
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Para realizar o experimento, a equipe promoveu a reprodução em laboratório a partir do cruzamento de cinco machos albinos brancos com 80 fêmeas da linhagem selvagem, misturando manualmente o esperma e os óvulos. Desse processo nasceram aproximadamente 8.200 filhotes (alevinos), que se dividiram de maneira equilibrada entre quatro fenótipos de coloração: amarelo, azul-cobalto, branco e comum.
Os cientistas separaram 90 animais de cada uma das quatro cores para acompanhar a evolução de desenvolvimento. Todos os peixes selecionados foram mantidos em tanques sob as mesmas condições de temperatura, qualidade da água e oferta de alimentação ao longo de todo o período de avaliação.
Pesagem da truta-arco-íris mostrou virada da linhagem amarela aos šest meses
Durante o acompanhamento no Núcleo Regional de Pesquisa em Salmonicultura Dr. Ascânio de Faria, as equipes submeteram os peixes a pesagens periódicas para medir a conversão alimentar em massa muscular até a fase em que a espécie atinge o porte comercial para abate. No Brasil, o tamanho padrão de consumo de truta para uma porção individual é de aproximadamente 250 gramas. Nos primeiros quatro meses, a variante selvagem manteve a liderança esperada pelos biólogos, mas o ritmo de ganho de massa mudou na metade final do monitoramento, permitindo que o peixe amarelo assumisse a dianteira aos seis meses e ampliasse a vantagem até o encerramento das medições.
- Aos 60 dias: primeira pesagem de controle dos quatro grupos avaliados nos tanques.
- Aos 120 dias (quarto mês): a truta comum liderava o desenvolvimento com peso médio de 54 gramas, enquanto a variante branca registrava a pior marca, com média de 33 gramas.
- Aos 180 dias (sexto mês): a truta amarela assumiu a primeira colocação com peso médio de 123 gramas, ultrapassando a linhagem comum, que marcou média de 119 gramas.
- Aos 270 dias (ponto de abate comercial): a truta amarela encerrou o experimento no topo com cerca de 300 gramas por animal, contra 237 gramas da variedade selvagem e 145 gramas da variante albina totalmente branca.
Por que a truta albina branca cresce menos que a variedade amarela?
As causas biológicas para o baixo ganho de peso das trutas totalmente brancas em todas as etapas de cultivo ainda são investigadas pelos cientistas, mas pesquisas anteriores já identificaram fatores hormonais e anatômicos ligados à pigmentação. Um estudo apoiado pela FAPESP e publicado em 2020 na revista científica PLOS ONE demonstrou que tanto as trutas brancas quanto as de cor azul possuem a glândula hipófise menor do que o normal, estrutura que funciona como o centro regulador do metabolismo e do crescimento corporal dos peixes. Além dessa diferença física na glândula, a ausência de melanina na pele — característica direta do albinismo — prejudica a atuação de um hormônio que participa simultaneamente da definição da cor, do controle de processos inflamatórios, da sensação de fome e do gasto de energia, o que reduz o apetite, a imunidade e a resposta do animal a situações de estresse.
“Outros trabalhos sugerem que os genes ligados à cor podem afetar negativamente tanto o crescimento quanto as defesas do organismo”, afirmou Vander Bruno dos Santos.
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Produção nacional de trutas soma 1,6 mil toneladas por ano
A descoberta de uma variante colorida capaz de atingir 300 gramas no tempo normal de abate abre alternativas para diversificar a truticultura brasileira, setor que registra uma produção anual aproximada de 1,6 mil toneladas. Segundo o coordenador do projeto, o animal de escamas amarelas atende tanto à indústria de alimentos quanto ao setor de lazer.
“A diferença na coloração tem potencial para aquicultura, podendo gerar diferentes produtos a partir da mesma espécie, mas principalmente para a pesca esportiva. Existe uma demanda por peixes diferentes em estabelecimentos de pesque e pague”, declarou Santos.
Na mesma linha de ampliação do mercado consumidor no país, o grupo de pesquisadores do Instituto de Pesca desenvolve estudos com a chamada “truta salmonada”. Nesse sistema de cultivo, os peixes recebem uma ração especial formulada para que a carne adquira coloração e propriedades nutricionais semelhantes às do salmão, com a equipe atuando agora para elevar o valor nutricional da espécie.
