Pesquisadores da agência científica nacional da Austrália (CSIRO) e da Universidade de Melbourne identificaram condições que permitem prever determinados episódios de El Niño e La Niña com até 12 meses de antecedência. A descoberta, divulgada nesta sexta-feira (23) e publicada na revista científica Science Advances, dobra a janela habitual de cerca de seis meses de confiança usada pelos centros meteorológicos mundiais.
O avanço científico ocorre na mesma semana em que as Nações Unidas emitiram um alerta global sobre a severidade do ciclo climático em curso. Em coletiva de imprensa conjunta em Genebra, na Suíça, realizada na quarta-feira (21), a Organização Meteorológica Mundial (OMM) e o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) informaram que o atual episódio de El Niño pode atingir uma força sem precedentes na história recente.
Como o estado do Pacífico antecipa o El Niño em 12 meses
A equipe de cientistas australianos chegou à conclusão após examinar um banco de dados com mais de 7.500 previsões históricas da Oscilação Sul-El Niño (ENSO), o ciclo natural que alterna fases de aquecimento e resfriamento das águas superficiais do oceano Pacífico equatorial. As projeções avaliadas no estudo foram geradas por modelos climáticos desenvolvidos em nove países diferentes, o que permitiu aos pesquisadores comparar o grau de acerto das simulações ao longo do tempo e identificar padrões de confiabilidade que antes passavam despercebidos nas análises de longo prazo.
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O levantamento demonstrou que o estado em que o oceano Pacífico se encontra no momento exato em que a simulação começa — seja sob efeito do El Niño, da La Niña (a fase fria do ciclo) ou em condição neutra — determina a precisão do resultado um ano depois. As previsões iniciadas durante episódios de La Niña apresentaram resultados consistentemente precisos com 12 meses de antecedência, ao passo que os cálculos disparados durante períodos de neutralidade climática mostraram confiabilidade muito menor.
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Para a coautora do estudo Mandy Freund, pesquisadora da Universidade de Melbourne e integrante do Centro de Excelência do Conselho Australiano de Investigação para o Clima do Século XXI, os dados oferecem um novo critério técnico para medir o grau de certeza das projeções de longo prazo. A autora principal da pesquisa e pesquisadora sênior da CSIRO, Nandini Ramesh, destacou a mudança de patamar trazida pela análise comparativa.
“Já sabíamos há algum tempo que as condições de partida influenciam o desempenho das previsões dos modelos, mas o nosso estudo mostra claramente quão drásticas podem ser essas diferenças de desempenho”, afirmou Nandini Ramesh.
A cientista ressaltou a utilidade prática de separar as simulações mais seguras daquelas sujeitas a maior margem de erro. “O mais entusiasmante nos nossos resultados é que podemos usar essa informação. Podemos identificar que previsões merecem maior confiança e, potencialmente, alertar o público para episódios de El Niño muito mais cedo”, declarou Ramesh.
OMM projeta El Niño recorde e impactos até 2027
Enquanto a metodologia avança na Austrália, o monitoramento internacional acompanha a rápida intensificação do fenômeno em 2026. A secretária-geral da Organização Meteorológica Mundial (OMM), Celeste Saulo, explicou que os dados mais recentes superam as marcas registradas nas últimas quatro décadas de observação.
“A Organização Meteorológica Mundial lança uma nova perspectiva climática sazonal que indica que o atual evento de El Niño pode ter uma força sem precedentes, literalmente fora dos gráficos de monitoramento que usamos nas últimas quatro décadas. O El Niño atingirá o pico no final de 2026, mas seus impactos serão sentidos muito depois disso”, disse Celeste Saulo, em tradução livre.
O subsecretário-geral das Nações Unidas para Assuntos Humanitários e Coordenador de Socorro de Emergência (OCHA), Tom Fletcher, detalhou o alcance geográfico das ocorrências severas previstas para os próximos meses. “Este El Niño é um colosso. É uma bola de demolição. Ele vai devastar a América Latina, o leste e o sul da África, a Ásia e o Pacífico com calor extremo, secas e inundações. E isso tem enormes consequências humanitárias”, afirmou Fletcher, também em tradução livre.
Os levantamentos divulgados pelas agências internacionais e por instituições financeiras reúnem indicadores específicos sobre a dimensão do evento climático entre o fim de 2026 e o início de 2027:
- Anomalia máxima projetada no Pacífico tropical: aumento de até 3,8 °C acima da média histórica durante o trimestre de novembro de 2026 a janeiro de 2027.
- População exposta à insegurança alimentar: 50 milhões de pessoas podem enfrentar aumento da fome devido às quebras de safra e desastres climáticos, segundo cálculo do OCHA.
- Impacto financeiro no continente africano: perdas estimadas pelo Banco Africano de Desenvolvimento entre US$ 10 bilhões e US$ 20 bilhões, valor equivalente a uma retração de 1% a 2% no Produto Interno Bruto (PIB) dos países afetados.
- Critério técnico de declaração oficial: média trimestral de temperatura superficial no Pacífico tropical a partir de 0,5 °C acima do padrão normal.
Histórico de aquecimento do El Niño e o recorde de 2025
O El Niño ocorre naturalmente em intervalos que variam de dois a sete anos e costuma atingir sua força máxima no mês de dezembro. Até o ciclo iniciado em 2026, os episódios mais intensos já catalogados pela OMM haviam registrado anomalias térmicas próximas ao teto de 3 °C acima da média na região equatorial do Pacífico. O fenômeno altera o regime de ventos e chuvas em escala planetária, provocando secas severas ou temporais em faixas vulneráveis como o Corredor Seco da América Central — território que vai do México ao Panamá —, além de causar mortalidade de recifes de coral e degradação florestal.
A gravidade dos episódios contemporâneos é ampliada pelo aquecimento global decorrente da queima de combustíveis fósseis, uma vez que um evento de El Niño, por si só, adiciona aproximadamente 0,2 °C à temperatura média da Terra, somando calor a uma atmosfera já aquecida pela ação humana. Esse acúmulo energético explica por que o ano de 2025 fechou como o terceiro mais quente já registrado na história da meteorologia, superando inclusive as temperaturas globais do forte El Niño de 2016, mesmo tendo ocorrido sob a influência natural de resfriamento de um episódio de La Niña.
Gestão de água na agricultura e próximos passos nos modelos
Como se trata de uma oscilação natural do oceano e da atmosfera, o El Niño não pode ser impedido, mas a ampliação do prazo de alerta para um ano muda o planejamento de governos e produtores rurais. O diretor de investigação no Centro Nacional de Investigação Científica da França (CNRS), Davide Faranda, apontou que o foco das autoridades públicas deve recair sobre a infraestrutura hídrica antes da chegada das secas ou das inundações.
“O essencial é gerir a água e preparar-nos para as alterações de onde e quando ocorre a precipitação”, afirmou Davide Faranda.
Com avisos emitidos 12 meses antes, administrações públicas ganham margem para regular o uso de reservatórios e águas subterrâneas, planejar a distribuição de água e adaptar o calendário de irrigação. No campo, os agricultores podem alterar as datas de plantio, concentrar a rega nas horas mais frescas do dia, estocar água preventivamente e instalar proteções térmicas para lavouras e rebanhos. Faranda acrescentou que o corte de emissões poluentes segue necessário para frear o agravamento dos desastres: “Não podemos eliminar o El Niño através da mitigação climática, mas podemos reduzir a forma como as alterações climáticas tornam mais graves as suas consequências”.
Apesar da comprovação estatística publicada em 23 de outubro de 2026, a ferramenta desenvolvida na Austrália ainda não opera de forma automática nos boletins meteorológicos oficiais. Segundo a pesquisadora Nandini Ramesh, a equipe científica da CSIRO e da Universidade de Melbourne ainda está a alguns passos de integrar essas conclusões diretamente aos modelos operacionais utilizados pelas agências de previsão do tempo.
