A B3, bolsa de valores brasileira sediada em São Paulo, acionou o mecanismo de circuit breaker às 10h04 desta segunda-feira (26) e interrompeu as negociações por 30 minutos. A paralisação automática ocorreu logo no início do pregão à vista, após o Ibovespa, principal índice de ações do país, atingir queda de 10% em relação ao fechamento anterior.
O recuo acentuado nos preços dos ativos refletiu a reação de operadores e investidores à reeleição do presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que venceu o senador Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno realizado no domingo (25), por 51,79% a 48,21% dos votos válidos. Em comunicado oficial, a bolsa detalhou a medida adotada: “O circuit breaker é um procedimento operacional da B3 previsto para momentos de forte queda do mercado. O mecanismo interrompe temporariamente as negociações e tem como referência a variação do Ibovespa B3, principal índice do mercado brasileiro de ações”.
Ibovespa recua 16,48% e dólar chega a R$ 5,605 após reabertura na B3
Para reorganizar o fluxo de ordens após a travagem inicial, a B3 programou a retomada das operações por meio de um leilão realizado na janela das 10h30 às 10h35. Mesmo com o intervalo destinado a permitir que os participantes do mercado reavaliassem suas posições e reduzissem movimentos desordenados de compra e venda, a pressão vendedora aumentou na volta dos negócios. Por volta das 11h32, o Ibovespa registrava queda de 16,48%, operando aos 171.277 pontos, enquanto o dólar comercial avançava 9,80%, cotado a R$ 5,4823, depois de ter atingido a máxima de R$ 5,605 (alta de 12,52%) às 9h30.
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A forte oscilação desta segunda-feira contrasta com o cenário registrado na sexta-feira (23), último pregão antes do fim de semana eleitoral. Naquela data, o índice de referência da bolsa havia encerrado o dia em alta de 0,47%, aos 205.082,56 pontos, e a moeda norte-americana tinha fechado em queda de 0,90%, vendida a R$ 4,993.
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Como funcionam os estágios do circuit breaker na B3?
O protocolo de segurança operacional da bolsa brasileira divide-se em três níveis progressivos de contenção, sempre calculados sobre a pontuação de fechamento do Ibovespa na sessão imediatamente anterior. A regulamentação estabelece que a ferramenta não pode ser acionada nos últimos 30 minutos do pregão; contudo, se a interrupção ocorrer na penúltima meia hora (durante a última hora de funcionamento regular), o encerramento das operações pode ser prorrogado em até 30 minutos para assegurar a reabertura e a negociação.
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- 1º estágio (queda de 10% no Ibovespa): suspensão imediata das negociações pelo período de 30 minutos.
- 2º estágio (queda de 15% no Ibovespa após a primeira reabertura): nova paralisação do pregão com duração de 1 hora.
- 3º estágio (queda de 20% no Ibovespa após a segunda reabertura): interrupção das operações por um prazo definido diretamente pela própria B3 e comunicado ao mercado.
De acordo com as normas técnicas da instituição, existe uma regra específica para aberturas com desvalorização abrupta entre os níveis. Como o Ibovespa já retornou do primeiro leilão operando com recuo superior à faixa de 15% (situando-se entre 15% e 20% de baixa), o gatilho intermediário deixa de ser aplicado e o próximo limite de paralisação automática passa a ser diretamente o patamar de 20% de queda.
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Ativos travados no circuit breaker e novos limites de oscilação na B3
Quando o freio de emergência entra em vigor na bolsa de valores, a trava operacional impede simultaneamente a compra e a venda de uma ampla gama de produtos financeiros negociados no mercado à vista e de contratos atrelados a eles. O bloqueio temporário abrange ações de empresas listadas, BDRs (certificados que representam ações de companhias estrangeiras negociados no Brasil), ETFs (fundos de investimento negociados em bolsa que replicam índices), opções referenciadas nesses ativos, derivativos e títulos de renda fixa privada.
Além da suspensão temporária no mercado à vista, a administração da B3 alterou parâmetros técnicos na manhã de 26 de outubro de 2026 e ampliou os limites máximos de oscilação diária para contratos futuros e fundos específicos:
- Contratos futuros de índice (códigos IND e WIN): limite de variação diária ampliado para -20%.
- Contratos futuros de dólar (códigos DOL e WDO): teto de oscilação ajustado para 12%.
- Fundos de índice selecionados (ETFs BOVA11, BOVV11, SMLL11 e SMAL11): limite de baixa estendido para -20%.
Histórico registra 24 acionamentos do circuit breaker desde 1997
Criado no mercado financeiro brasileiro em 1997, o mecanismo de interrupção automática completou 24 acionamentos em sua história com o episódio registrado em 26 de outubro de 2026. Antes disso, a ferramenta não era utilizada desde março de 2020, quando o início da pandemia de Covid-19 provocou seis paralisações em um único mês — nos dias 9, 11, duas vezes no dia 12, além dos dias 16 e 18 de março. Outro momento de paralisação do mercado ocorreu em 11 de setembro de 2001, após os ataques terroristas nos Estados Unidos, mas naquela ocasião a bolsa brasileira interrompeu e encerrou definitivamente os negócios do dia após queda de 9,17%, sem o acionamento automático do dispositivo.
Ao longo de quase três décadas de funcionamento, crises econômicas globais, mudanças cambiais e eventos políticos domésticos concentraram os demais disparos da trava operacional na bolsa de valores. Em 18 de maio de 2017, o pregão parou por 30 minutos devido às denúncias contra o então presidente Michel Temer, em episódio conhecido no mercado como Joesley Day; em 2008, a crise imobiliária do subprime nos Estados Unidos gerou seis interrupções (sendo quatro de 30 minutos e uma de 1 hora apenas em outubro, mês em que o índice fechou o dia 22 com baixa de 10,18%); em janeiro de 1999, a crise cambial e a desvalorização do real causaram dois acionamentos, incluindo o do dia 14 de janeiro, véspera da adoção do câmbio flutuante; em 1998, a moratória da Rússia levou a cinco suspensões, com o índice recuando 15,82% após pausa de uma hora em 10 de setembro; e em 1997, ano de estreia da regra, a crise financeira asiática motivou três paralisações no país.
