A cotação do dólar comercial disparou 12,25% e atingiu R$ 5,6048 por volta das 9h40 desta segunda-feira (26), em reação direta à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno das eleições presidenciais. No mesmo início de pregão em São Paulo, o Ibovespa Futuro (INDFUT) despencou 14,84%, aos 177.215 pontos, por volta das 9h04, e teve as suas negociações suspensas logo em seguida.
A moeda norte-americana já havia iniciado a sessão de 26 de outubro de 2026 em alta de 8,65%, negociada a R$ 5,424 perto das 9h03, antes de ampliar os ganhos ao longo da primeira hora de operações. No mercado de juros futuros, que mede a expectativa dos investidores para o custo do dinheiro nos próximos anos, os contratos registraram avanço nas taxas por volta das 9h10: o depósito interfinanceiro (DI) com vencimento em janeiro de 2027 subia 52 pontos-base, para 13,983% ao ano, enquanto o contrato para janeiro de 2031 avançava 182 pontos-base, atingindo 14,460%.
B3 altera limites do dólar futuro e do Ibovespa futuro
Diante da forte oscilação na abertura dos negócios, a B3, empresa que administra a bolsa de valores brasileira, ampliou exclusivamente para a sessão desta segunda-feira (26) as margens máximas de variação no mercado futuro. O limite inferior de oscilação diária para os contratos futuros de Ibovespa (negociados sob os códigos IND e WIN) passou de uma queda máxima de 10% para 15%, ao passo que o teto de alta diária para os contratos futuros de dólar (códigos DOL e WDO) subiu de 6% para 8,4%. Essas mudanças valem apenas para os derivativos e não alteraram as regras do circuit breaker — mecanismo automático de trava que interrompe as negociações do mercado à vista do Ibovespa quando o índice acumula perdas acentuadas em relação ao fechamento da véspera.
As regras mantidas pela B3 para o acionamento do circuit breaker no mercado à vista do Ibovespa e os episódios históricos em que o mecanismo já precisou ser ativado na bolsa brasileira funcionam da seguinte forma:
- Queda de 10% no Ibovespa à vista: interrupção automática das negociações por 30 minutos.
- Queda de 15% após a reabertura: nova paralisação dos negócios pelo período de uma hora.
- Queda de 20% na mesma sessão: terceira suspensão das operações no pregão.
- Crise asiática (1997): mecanismo acionado após recuo de 10,19% no índice.
- Desvalorização do real (1999): paralisação ativada em dia de baixa de 10,29%.
- Crise do subprime nos Estados Unidos (2008): seis interrupções registradas em menos de um mês.
- Pandemia de Covid-19 (março de 2020): seis acionamentos no mesmo mês, ocasião em que o índice chegou a recuar mais de 14% em um único dia.
O desempenho do Ibovespa à vista, cuja abertura ocorre às 10h, e o eventual acionamento efetivo do circuit breaker na bolsa brasileira ainda não haviam ocorrido até a última atualização dos dados, registrada às 9h49.
Continue lendo: Apuração ao vivo MIx Vale nas Eleições 2026 definem presidente entre Lula e Flávio Bolsonaro
Ações brasileiras no exterior e reação à vitória de Lula
No mercado internacional, os ativos brasileiros também registraram desvalorização antes mesmo da abertura das bolsas nos Estados Unidos. O fundo de índice iShares MSCI Brazil (EWZ), principal ETF (fundo negociado em bolsa que replica uma cesta de ações) de empresas brasileiras listado em Nova York, já havia recuado cerca de 19% nas negociações estendidas (after-hours) de domingo (25). Na manhã desta segunda-feira (26), durante o pré-mercado norte-americano, o fundo operava em queda que variou entre 25,29% (cotado a US$ 31,82 às 8h54) e 26,16%.
Saiba mais: Eleições 2026: votação entre Lula e Flávio Bolsonaro termina às 17h sob pedidos de prorrogação ao TSE
A venda de papéis e a busca por proteção cambial ocorreram após o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) confirmar, no domingo (25), a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva para um quarto mandato presidencial com 100% das seções apuradas. O candidato do PT obteve 51,79% dos votos válidos (cerca de 64,17 milhões de votos), superando o senador Flávio Bolsonaro (PL), que alcançou 48,21% — uma diferença de aproximadamente 4,4 milhões de votos. O desfecho das urnas contrariou a maior parte das pesquisas divulgadas nas semanas anteriores e a expectativa predominante entre gestores financeiros, que projetavam a vitória do candidato do PL após ele ter encerrado o primeiro turno, realizado em 4 de outubro de 2026, na liderança com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula.
Na época, no pregão de 5 de outubro de 2026, logo após o primeiro turno, o Ibovespa havia subido 7,70%, atingindo o recorde de 206.911 pontos, e o dólar havia recuado 4,11%, a R$ 5,001. Na última sexta-feira (23), último dia útil antes da votação final, a bolsa brasileira havia fechado em alta de 0,47%, aos 205.083 pontos, o dólar comercial havia caído 0,90%, cotado a R$ 4,9930, e o fundo EWZ havia avançado 1,77%, a US$ 42,59.
“O mercado vinha atribuindo alta probabilidade de alternância de poder e, com isso, os preços vieram melhorando desde meados de agosto. Com a não confirmação, o chão ficou muito longe e devemos ver uma forte correção hoje”, afirmou Davi Khattar, gestor de portfólio da Atlas One Investimentos. Para o economista-chefe para mercados emergentes da Capital Economics, William Jackson, “a vitória surpreendente de Lula vai frustrar as esperanças de reformas que melhorariam as finanças públicas e fortaleceriam as perspectivas de crescimento”.
Política fiscal, contestação no STF e cenário externo
A condução das contas públicas no novo mandato presidencial e os desdobramentos políticos da votação concentram as análises das corretoras para os próximos meses. “O principal foco dos investidores será a condução da política fiscal no quarto mandato de Lula. A trajetória da dívida pública, o controle das despesas e a credibilidade das metas fiscais serão determinantes para a confiança dos agentes econômicos”, disse Gabriel Mollo, analista da Daycoval Corretora. Na avaliação de Jason Vieira, economista-chefe da Lev DTVM, o governo pode buscar medidas para conter a desconfiança: “Em paralelo, a equipe econômica sinaliza uma PEC com revisão de gastos obrigatórios e busca do centro da meta fiscal”.
Além da pauta econômica, analistas monitoram o ambiente institucional após a decisão tomada no domingo (25) pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Cristiano Zanin, que prorrogou o horário de encerramento da votação das 17h para as 19h (horário de Brasília) em razão de problemas no transporte público e no deslocamento de eleitores. Embora o próprio PL e o PT tivessem solicitado o adiamento do horário, o senador Flávio Bolsonaro não reconheceu a derrota em pronunciamento após a apuração e declarou que pedirá a anulação do pleito na Justiça. “Não dá para descartar discussões sobre uma eventual judicialização do resultado ou outros desdobramentos políticos. Esse ambiente de incerteza tende a impactar os preços dos ativos”, afirmou William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue.
No cenário externo, o mercado acompanha a guerra entre os Estados Unidos e o Irã e o comportamento das matérias-primas: por volta das 7h40, o barril de petróleo tipo Brent caía 1,40%, a US$ 115,09, e o tipo West Texas Intermediate (WTI) recuava 1,95%, a US$ 101,26. Na Ásia, o índice SSEC de Xangai subiu 0,19%, o CSI300 recuou 0,04%, o Nikkei do Japão perdeu 0,80%, o sul-coreano Kospi caiu 1,46% e o Hang Seng, em Hong Kong, avançou 0,51%. Na agenda da semana, investidores aguardam a divulgação do Boletim Focus do Banco Central — cujos dados foram coletados apenas até sexta-feira (23) — e a decisão de política monetária do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), prevista para quarta-feira (28).
