Estimulação transcraniana por corrente contínua reduz impulso alimentarPor Luís Pereira
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Corrente elétrica aplicada sobre a cabeça reduziu o desejo intenso por comida em mulheres com obesidade, segundo um estudo-piloto da Universidade de São Paulo (USP). A intervenção durou cinco dias consecutivos e combinou a estimulação com sessões de educação nutricional. Os resultados foram divulgados em 13 de outubro de 2026 na revista Physiology & Behavior.
O efeito apareceu logo após o fim das sessões e se manteve durante o acompanhamento de seis meses. As voluntárias foram atendidas em Ribeirão Preto, no interior paulista, em uma pesquisa conduzida no Laboratório de Estudos em Nutrição, Neurociências e Metabolismo da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP.
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Quem conduziu, financiou e publicou a pesquisa
- Instituição responsável: Laboratório de Estudos em Nutrição, Neurociências e Metabolismo da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP
- Apoio financeiro: Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo
- Revista de publicação: Physiology & Behavior
- Público examinado: 22 mulheres de 20 a 40 anos com obesidade grau 1 e 2
- Período de avaliação: medições imediatas e retornos com um, três e seis meses
Corrente elétrica sobre o córtex pré-frontal e o controle dos impulsos
A técnica não invasiva e indolor usou eletrodos esponjosos umedecidos em soro fisiológico, colocados sobre a cabeça das voluntárias, para aplicar uma corrente elétrica contínua de 2 miliamperes. O alvo foi o córtex pré-frontal dorsolateral, região ligada à tomada de decisões, ao planejamento, à autorregulação e à inibição de comportamentos diante de alimentos muito palatáveis.
Estudos anteriores de neuroimagem indicam que pessoas com obesidade costumam apresentar menor ativação ou desequilíbrio nessa área frontal, o que reduz a capacidade de frear impulsos alimentares. A corrente de baixa intensidade busca modular a excitabilidade dos neurônios e recuperar essa capacidade, como suporte aos mecanismos conscientes de controle da ingestão.
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“A estimulação ativa reduziu o desejo por comida, tanto logo após a intervenção quanto a longo prazo”, afirmou a nutricionista Marina Rodrigues Giuliani, primeira autora do estudo. Segundo ela, “Os resultados sugerem que a neuromodulação pode influenciar esse aspecto do comportamento alimentar, mesmo sem produzir alterações significativas no peso.”
Oficinas de alimentação e peso que não mudou em cinco dias
O experimento dividiu as 22 mulheres em dois grupos iguais: metade recebeu a estimulação real e a outra metade, uma estimulação simulada, usada como grupo de controle. Cada voluntária passou por três aplicações diárias de 20 minutos, totalizando 15 sessões em cinco dias. Nos intervalos de 20 minutos, todas participavam de oficinas sobre alimentação consciente, nutrientes, saciedade, leitura de rótulos, hidratação, controle de porções e diferença entre fome física e fome emocional.
Os dois grupos tiveram melhora expressiva no controle consciente da ingestão e redução dos episódios de comer descontrolado. Para a equipe, essa resposta comum confirmou que as oficinas teóricas têm utilidade por si. Já peso, índice de massa corporal e proporções de gordura e massa magra não mudaram em cinco dias, resultado previsto, porque o estudo não impôs dieta com restrição calórica.
Quantas pessoas com obesidade o mundo deve ter até 2030
- Mulheres com obesidade grau 1 no mundo: 399 milhões de pessoas
- Mulheres com obesidade grau 2 ou superior no planeta: 244 milhões de pessoas
- Homens com obesidade grau 1 em escala global: 346 milhões de pessoas
- Homens com obesidade grau 2 ou superior no mundo: 141 milhões de pessoas
Limites do estudo e a próxima fase de testes da USP
A obesidade segue classificada como doença crônica complexa, com alto índice de recidiva, inclusive após cirurgias ou tratamentos farmacológicos convencionais. A estimulação transcraniana por corrente contínua já é usada no tratamento de distúrbios neuropsiquiátricos, como depressão e dor crônica, e agora é estudada como terapia complementar para pessoas com impulsos alimentares intensos.
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“A obesidade ainda é uma doença muito prevalente e de difícil tratamento – mesmo quando há perda de peso com tratamento médico ou cirúrgico, o risco de recidiva é alto”, declarou a professora Vivian Marques Miguel Suen, do Departamento de Clínica Médica da FMRP-USP e orientadora da pesquisa. Ela acrescentou: “A ideia é que a estimulação possa funcionar como uma ferramenta complementar, ajudando a controlar o desejo por comida e, eventualmente, potencializando o efeito de outras terapias.”
O estudo-piloto não registrou nenhum evento adverso importante entre as voluntárias que receberam a corrente contínua. Ainda não se sabe, porém, se os resultados se repetem em grupos maiores, em homens ou em pessoas com graus mais severos de obesidade. A equipe planeja a próxima etapa com estimulação magnética transcraniana, que usa pulsos magnéticos concentrados para induzir atividade cerebral mais profunda, em voluntários com obesidade e transtorno de compulsão alimentar periódica.
















