Fósseis de 138 mil a 199 mil anos revelam como eram os denisovanosPor Luís Pereira
4 min de leitura
![]() |
Fósseis retirados do sítio de Xujiayao, no norte da China, passaram a ser atribuídos aos denisovanos por pesquisadores do Instituto de Paleontologia de Vertebrados e Paleoantropologia (IVPP), vinculado à Academia Chinesa de Ciências. Os restos têm entre 138 mil e 199 mil anos e estão entre os exemplares mais antigos desse grupo já confirmados por análise molecular. O trabalho também descreve a aparência física dessa linhagem extinta.
A pesquisa foi publicada em 21 de outubro de 2026 na revista científica Nature e tem como líder a paleontóloga e geneticista Qiaomei Fu, autora correspondente do estudo. Os primeiros autores são Song Xing, Zhongyou Wu, Qingfeng Shao e Junyi Ge. No artigo, os autores escreveram: “Nós, portanto, determinamos que as amostras de hominídeos de Xujiayao pertencem a uma população denisovana”, em tradução livre.
Siga o Mix Vale no Google e veja nossas notícias primeiro
Traços do crânio e da face que identificam os denisovanos
Os pesquisadores compararam crânios, mandíbulas e dentes de Xujiayao com o crânio denisovano de Harbin, também encontrado em território chinês. O cruzamento revelou um perfil craniano baixo e largo, sustentado por ossos espessos e paredes laterais quase paralelas.
Na parte frontal, a testa era inclinada para trás e ficava logo acima dos arcos superciliares, as saliências ósseas sobre os olhos grandes e proeminentes. As órbitas tinham formato quadrado ou retangular, e as maçãs do rosto eram planas. A mandíbula apresentava baixa projeção, o que os cientistas chamam de prognatismo fraco.

Segundo os pesquisadores, a estrutura física dos denisovanos reunia traços observados em outros três grupos humanos antigos. A abóbada craniana espessa lembra a do Homo erectus, espécie que viveu na África e na Ásia. A cavidade do ouvido interno se aproxima da registrada nos neandertais, enquanto as laterais altas e arqueadas do crânio têm semelhanças com as dos humanos modernos, da espécie Homo sapiens.
Leia também: Pesquisa da Universidade da Virgínia descobre padrão comum em relatos de vidas passadas
Os fragmentos ósseos e as amostras moleculares não trazem dados sobre tecidos moles. Por isso, a cor da pele, dos olhos e dos cabelos desses indivíduos não pode ser determinada com o material disponível.
Proteína do colágeno e 18 proteínas antigas recuperadas
Para definir a origem biológica dos ossos, os cientistas usaram a paleoproteômica, técnica que extrai e sequencia proteínas preservadas em fósseis antigos. A análise se concentrou em dois espécimes: um osso parietal direito e um ramo mandibular selecionados no acervo de Xujiayao.
Dos dois ossos, o laboratório recuperou 18 proteínas antigas endógenas, ou seja, originárias do próprio organismo estudado. No sequenciamento do colágeno, proteína responsável pela resistência óssea, a equipe localizou a mutação COL1A2-996 R>K, que apresenta lisina no lugar de arginina. Esse marcador é exclusivo dos denisovanos e não ocorre em neandertais nem em humanos modernos.
O sítio aberto em 1974 e a classificação contestada
O sítio arqueológico, na Bacia de Nihewan, província de Hebei, no norte da China, guarda 20 fósseis humanos, entre fragmentos cranianos, mandibulares e dentários, correspondentes a pelo menos 16 indivíduos. Também foram encontrados cerca de 30.000 artefatos e ferramentas de pedra, osso e chifre, além de restos de cavalos, rinocerontes e gazelas.
Continue lendo: A Noite Estrelada de Van Gogh retrata constelação de Touro, aponta estudo
O local foi descoberto em 1974, e as principais escavações ocorreram entre 1976 e 1979. Na época, não havia tecnologia para determinar a qual ramo evolutivo aqueles grupos pertenciam. Os denisovanos só foram reconhecidos pela ciência em 2010, quando pesquisadores analisaram o DNA de um osso de dedo escavado em 2008 na Caverna de Denisova, na Sibéria, território da Rússia.
Esses grupos habitaram o leste e o sudeste da Ásia no período estimado entre 300 mil e 45 mil anos atrás. Sem confirmação genética ou proteica, os fósseis de Xujiayao receberam em 2024 outra classificação, como suposta nova espécie batizada de Homo juluensis. O estudo liderado por Qiaomei Fu contesta a validade dessa espécie.
Com base nas semelhanças cranianas entre Xujiayao e Harbin, os autores apontam que os fósseis do Pleistoceno Médio de Jinniushan, Dali e Hualongdong, no leste asiático, também integrariam a linhagem denisovana. Essa inclusão permanece em aberto, pois a associação se baseou na forma dos crânios e depende de análises diretas de DNA ou de proteínas antigas desses três conjuntos.















