Pesquisa dinamarquesa mostra axolote regenerando coração sem cicatrizPor Luís Henrique Costa
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A Universidade de Aarhus, na Dinamarca, mapeou como o axolote (Ambystoma mexicanum) reconstrói o próprio coração depois de lesões experimentais que imitam um infarto no ser humano. Ao contrário dos mamíferos adultos, que ficam com cicatriz permanente e perdem parte da função muscular, essa salamandra aquática recompõe o miocárdio sem deixar marcas definitivas no órgão. O animal é originário de Xochimilco, no México.
O trabalho foi publicado na revista Developmental Dynamics e indexado em 15 de janeiro de 2026. Segundo os cientistas, “os axolotes passam por mudanças metabólicas dinâmicas durante o processo de regeneração do coração e apresentam uma resposta reparadora robusta à criolesão cardíaca, que não é afetada pela hiperóxia”, em tradução livre. A declaração é da pesquisadora Anita Dittrich, autora correspondente do estudo, e dos coautores, entre eles Henrik Lauridsen, também pesquisador da instituição.
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Como o coração do axolote se refaz após a lesão
Para acompanhar a reação do anfíbio, a equipe usou a ressecção, que é a retirada cirúrgica de parte do tecido, e a criolesão, uma lesão provocada pelo frio diretamente no músculo cardíaco. Logo após o congelamento parcial, o coração registra aumento inicial na captação de glicose e na biossíntese de nucleotídeos, compostos que formam o DNA e o RNA e são necessários para a multiplicação das células. Em uma etapa posterior, o órgão passa a captar mais acetato, movimento concentrado na zona de borda, onde o tecido saudável encontra a área danificada.
As alterações não se limitam ao ponto da ferida e atingem o organismo inteiro ao longo das semanas de acompanhamento. Durante a regeneração, o axolote aumenta o consumo global de oxigênio e reduz os níveis de lactato no plasma sanguíneo. Os pesquisadores também expuseram o animal à hiperóxia, um ambiente com concentração elevada de oxigênio que costuma bloquear a regeneração em outros modelos, mas a recuperação do coração não perdeu eficiência.
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No local do crioinfarto, o organismo deposita primeiro uma cicatriz transitória de colágeno, que contém a lesão. Enquanto essa proteção atua, os cardiomiócitos (células musculares do coração) vizinhos sofrem desdiferenciação, voltam a um estágio mais simples e voltam a se multiplicar. Assim, substituem o tecido cicatricial por um músculo cardíaco novo e funcional.
Números sobre a espécie e a pesquisa
- Espécie analisada: axolote (Ambystoma mexicanum), salamandra aquática nativa do sistema de lagos de Xochimilco, nos arredores da Cidade do México.
- Instituição responsável pelo estudo metabólico: Universidade de Aarhus, em Aarhus, na Dinamarca, com artigo na revista Developmental Dynamics.
- Capacidade de reconstrução: axolotes adultos regeneram até 20% da massa total do coração sem cicatrizes em dois meses, segundo dados do The Jackson Laboratory.
- Outras estruturas refeitas pelo animal: membros locomotores, cauda, medula espinhal, pele, mandíbulas e partes do cérebro e dos olhos.
- População em vida livre: entre 50 e 1.000 indivíduos, classificados como Criticamente em Perigo pela Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).
Trabalhos de 2017 e a ameaça de extinção
O mapeamento divulgado em 2026 segue estudos anteriores sobre as células dessa salamandra. Ela mantém na vida adulta traços larvais e juvenis, como as brânquias externas plumosas, condição chamada neotenia. Em 2017, Nadia Rosenthal e James Godwin, ambos do The Jackson Laboratory, mostraram no periódico npj Regenerative Medicine que os macrófagos, células de defesa do sistema imunológico, são indispensáveis para remodelar a matriz extracelular e evitar fibrose permanente.
Mesmo sendo criado em larga escala em cativeiro, o axolote corre risco severo de desaparecer da natureza no México. A expansão urbana da Cidade do México, a poluição da água, a perda das chinampas (ilhas agrícolas flutuantes construídas historicamente na região) e a introdução de peixes invasores no Lago Xochimilco reduziram a população selvagem à faixa de 50 a 1.000 exemplares.
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O que ainda falta para a medicina humana
Os experimentos comprovam a recuperação anatômica e também a volta da atividade elétrica e mecânica do coração no anfíbio. Os cientistas, porém, dizem que os resultados não são uma cura, nem terapia pronta ou medicamento disponível para pacientes. Em mamíferos adultos, o infarto fecha a ferida rapidamente com tecido fibroso, e qualquer intervenção em pessoas precisaria coordenar a divisão celular, a formação de vasos, o controle da inflamação e a condução de sinais elétricos sem causar crescimento desordenado de tecido.
As etapas da Universidade de Aarhus servem para identificar mecanismos biológicos e metabólitos específicos que orientem novas perguntas em laboratório. O próximo passo é testar separadamente os sinais químicos e o uso de nutrientes observados no axolote, para entender por que estratégias bem-sucedidas em salamandras não acontecem de forma natural em mamíferos.
















