Cientistas registram vaca austríaca manipulando escova para se coçar o corpo

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Vaca Verônika Foto: Vaca Verônika - Reprodução/X

Veronika, uma vaca da raça marrom suíça de 13 anos que vive como animal de estimação em uma vila nas montanhas da Áustria, passou anos desenvolvendo a habilidade de usar objetos para se coçar. Ela pega gravetos, ancinhos e escovas de jardim com a boca e aplica técnicas específicas em diferentes partes do corpo. O comportamento foi documentado por cientistas da Universidade de Medicina Veterinária de Viena e publicado na revista Current Biology em 19 de janeiro.

Os pesquisadores destacam que se trata da primeira confirmação científica de uso de ferramentas por uma vaca da espécie Bos taurus. A observação começou há mais de dez anos quando o proprietário notou a vaca pegando galhos para aliviar coceiras. Com o tempo, Veronika refinou o método e passou a selecionar objetos com base na textura e na área do corpo que precisava de atenção.

Uso flexível da escova de convés demonstra inteligência

Os testes realizados pelos cientistas envolveram a apresentação de uma escova de convés assimétrica à vaca. Veronika segurava o objeto pela parte do cabo ou pela base com cerdas e ajustava a orientação conforme necessário.

Ela empregava o lado com cerdas duras para esfregar as costas e regiões de pele mais grossa com movimentos de vai e vem e puxada para frente. Para áreas mais delicadas como a barriga, as dobras da pele e a região do úbere, a vaca preferia o lado liso do cabo, realizando toques suaves e precisos.

Essa escolha não foi aleatória. Análises estatísticas mostraram que Veronika usava o lado das cerdas cerca de 2,5 vezes mais para o corpo superior e o lado do cabo predominantemente para as partes inferiores. A interação entre a região do corpo e o tipo de extremidade da ferramenta se revelou significativa nos modelos estatísticos aplicados.

Detalhes da técnica revelam adaptação ao ambiente

A vaca ajustava a pegada ocasionalmente, soltando e reposicionando a escova antes de iniciar o movimento. Os pesquisadores observaram que a duração dos eventos de coceira não variava de forma relevante entre as extremidades da ferramenta, o que indica eficiência na execução.

Veronika também combinava o uso da língua com a ferramenta em alguns momentos. Essa combinação permitia alcançar pontos difíceis e limpar resíduos ao mesmo tempo. O ambiente rural com acesso a diversos objetos naturais e de jardim favoreceu o desenvolvimento espontâneo do comportamento ao longo dos anos.

Observações iniciais levaram à investigação científica

O proprietário da vaca, um agricultor orgânico da região de Caríntia, acompanhou o progresso da habilidade desde que Veronika tinha cerca de três anos. Ele registrou vários momentos em que a vaca selecionava gravetos ou ferramentas de jardim para uso próprio.

Esses registros chamaram a atenção de especialistas em cognição animal. A equipe liderada pelos pesquisadores Antonio Osuna-Mascaró e Alice Auersperg decidiu realizar testes controlados para avaliar se o comportamento qualificava como uso genuíno de ferramenta.

Os resultados confirmaram que Veronika não apenas utilizava o objeto, mas o manipulava de forma flexível e direcionada a objetivos específicos. Essa flexibilidade havia sido registrada anteriormente apenas em humanos e chimpanzés em contextos semelhantes de auto-cuidado.

Experimentos controlados confirmam seletividade

Durante as sessões experimentais, a orientação da escova era semi-randomizada para evitar viés. Mesmo assim, a vaca demonstrava preferência clara pelo lado das cerdas ao atacar coceiras nas costas e pelo cabo liso em zonas sensíveis.

Os movimentos incluíam elevação da ferramenta, reposicionamento e aplicação de pressão diferenciada. Para as costas, predominava o movimento de esfregação vigorosa. Nas regiões inferiores, os toques eram mais delicados e direcionados.

Essa diferenciação por região corporal reforça a ideia de que a vaca processa informações sobre a ferramenta e sobre o próprio corpo para escolher a estratégia mais adequada em cada caso.

Implicações para o entendimento da cognição bovina

A publicação na Current Biology abre caminho para novas pesquisas sobre capacidades cognitivas em bovinos. Até então, não existiam registros documentados de uso de ferramentas nessa espécie apesar de dez mil anos de convivência com humanos.

Veronika vive em um contexto de pet, sem exploração para produção de leite ou carne, o que permitiu maior liberdade para explorar o ambiente e desenvolver comportamentos espontâneos. Os cientistas planejam continuar observando a vaca para entender melhor como essas habilidades surgem e se aprimoram ao longo do tempo.

O caso destaca a importância de observar animais em ambientes que permitam expressão natural de comportamentos. Estudos futuros podem investigar se outros bovinos em condições semelhantes também exibem capacidades semelhantes quando estimulados.

  • A vaca demonstrou uso de múltiplas ferramentas ao longo dos anos, incluindo gravetos e ancinhos.
  • Os testes com a escova de convés envolveram dezenas de tentativas com orientação variada.
  • Análises estatísticas incluíram testes qui-quadrado e modelos lineares para validar as preferências.
  • O comportamento combina manipulação oral com movimentos precisos e ajustes finos de pegada.

Veronika continua a surpreender os observadores com sua destreza. A vaca mantém a rotina de selecionar e utilizar objetos para aliviar coceiras, adaptando sempre a técnica às necessidades do momento. Esse registro pioneiro contribui para ampliar o conhecimento sobre a inteligência dos animais de produção e de companhia.

Beatriz Lima é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2024.

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