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Arqueólogos encontraram um caderno de cera do século XIII quase intacto no interior de uma latrina medieval em Paderborn, na Alemanha. O achado surpreendente emergiu durante escavações para a fundação de um novo prédio administrativo da cidade, revelando um fragmento extraordinário da vida cotidiana medieval com tinta ainda legível em suas páginas.

A organização Landschaftsverband Westfalen-Lippe (LWL) anunciou a descoberta em 12 de maio de 2026. O objeto representa o único livro completo de tabuletas de cera já recuperado na região da Renânia do Norte-Vestfália. Operários que cavavam a fundação depararam com o artefato dentro de uma câmara de latrina selada, onde condições úmidas e anaeróbias preservaram o material orgânico por sete séculos.

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Caderno que cabe na palma da mão guarda secrets da burguesia medieval

O caderno é diminuto, medindo apenas alguns centímetros. Sua capa de couro, decorada com fileiras de lírios estampados, envolve dez páginas de madeira revestidas com cera. A escrita em latim cursivo ainda é visível na superfície, gravada com um estilete. Oito das dez páginas possuem inscrições em ambos os lados, indicando que o proprietário aproveitava cada espaço disponível para anotar suas observações.

A orientação do texto em latim cursivo muda dependendo de como o leitor segurasse o livro. A caligrafia é obra de uma única pessoa. O padrão variado e o estilo apressado sugerem alguém fazendo anotações rápidas, não mantendo um registro formal. A arqueóloga chefe da cidade Dra. Sveva Gai acredita que o proprietário era provavelmente um comerciante de Paderborn pertencente à burguesia culta da época. “Mercadores eram pessoas educadas: diferentemente da maioria da população, conseguiam tanto ler quanto escrever”, afirmou Gai.

O tamanho peculiar do caderno—cabendo confortavelmente na mão—indica sua função prática. Não era um objeto de apresentação ou prestígio, mas uma ferramenta de trabalho carregada diariamente. A qualidade do couro estampado e a própria cera sugerem, porém, que seu proprietário dispunha de recursos financeiros consideráveis para possuir tal item. O motivo exato pelo qual o caderno terminou em uma latrina permanece desconhecido. Gai oferece uma hipótese plausível: “Pode ter caído acidentalmente.”

Latrina medieval revela detalhes sobre higiene de elite urbana

A câmara de latrina onde o caderno foi descoberto era selada, o que significa que estava isolada do resto da estrutura. Essa separação criou um ambiente específico: úmido, sem oxigênio circulante, perfeito para preservar materiais orgânicos que normalmente apodreceriam rapidamente. A conservadora da LWL, Susanne Bretzel, foi a primeira a examinar o objeto após sua recuperação, ainda embrulhado em terra encharcada.

Ao lado do caderno, a equipe encontrou peças intactas de cerâmica proto-vidrada, remanescentes de tecido, fragmentos de cesta tecida, um punhal e aduelas de barril. Esses achados associados estabelecem o período do livro entre os séculos XIII e XIV. A concentração de artefatos em um mesmo local oferece uma visão rara da vida doméstica de uma família abastada medieval.

Mais revelador ainda foi a descoberta de fragmentos de seda fina rasgados em pedaços retangulares dentro da mesma latrina. Alguns fragmentos possuem tecelagem intrincada e decorações. A seda, material extremamente caro na Idade Média, aparentemente foi reutilizada após desgaste como tecido de limpeza pessoal. Bretzel sugeriu que os retalhos funcionavam como papel higiênico, um detalhe que aponta inequivocamente para um domicílio afluente.

A escolha de seda fina para essa função revela status e desperdício de recursos que apenas membros da elite urbana poderiam se permitir. Retalhistas comuns teriam usado lã tosca ou fibras de linho descartadas. O uso de seda evidencia a riqueza do proprietário do caderno e reforça a teoria de que se tratava de um comerciante bem-sucedido, não de um artesão ou trabalhador comum.

Motivo de lírios na capa conecta objeto a símbolos de poder

A capa de couro que envolve o caderno apresenta um motivo decorativo que não é aleatório. Fileiras de lírios estão estampadas em toda a superfície, um detalhe que especialistas da LWL interpretam como indicador de status social elevado. Na Idade Média, o lírio carregava significado simbólico profundo. Representava pureza, poder real e bênção divina. Apenas pessoas de posição social respeitável podiam se permitir possuir objetos decorados com esse símbolo.

Gai observa que Paderborn central era habitada principalmente pela alta burguesia urbana, não pela nobreza feudal. Comerciantes bem-sucedidos e seus familiares ocupavam as propriedades mais valiosas próximas ao antigo mosteiro Abdinghof. A combinação do caderno de cera com escrita em latim, a seda fina usada para higiene pessoal e a decoração de lírios na capa forma um quadro consistente de uma pessoa instruída, rica e conectada aos centros de poder da cidade.

Se pesquisadores conseguirem conectar a latrina a um lote de propriedade específico por meio de registros arquivais, poderão potencialmente identificar o nome do proprietário original do caderno. “Então seria possível, no melhor dos casos, conectar a tabuleta de cera com o nome de uma pessoa específica”, afirmou Gai.

Camadas de texto apagado podem revelar anos de anotações

O que torna o caderno ainda mais valioso aos estudiosos medievalistas é que a cera não apresenta apenas uma camada de escrita. Os livros de tabuletas de cera eram reutilizáveis. O estilete possuía uma ponta afiada para cortar letras na cera e uma extremidade oposta achatada em formato de espátula para alisar a superfície e apagar o texto anterior. Essa ação de apagamento deixava escrita mais antiga impressa por baixo da camada final.

Podem existir várias gerações de anotações empilhadas invisibilmente umas sobre as outras. Especialistas da LWL pretendem aplicar tecnologia de imagem de alta resolução para separar as camadas sobrepostas e recuperar entradas deletadas. A escrita visível já demonstra que o usuário manuseava o caderno casualmente, rotacionando-o para escrever em diferentes direções conforme necessário. Gai afirma que esse padrão, combinado com a escrita consistente de uma única mão, se encaixa perfeitamente em uma ferramenta prática de trabalho diário, não em um objeto de apresentação ou cerimonial.

A transcrição começou, mas Gai advertiu que o trabalho é lento. O latim cursivo medieval frequentemente contém ortografias irregulares que podem alterar significados. Algumas palavras saltam aos olhos com clareza, enquanto outras exigem comparação cuidadosa com scripts conhecidos do período. Após a transcrição ser concluída, o latim será traduzido para o alemão. A LWL está trabalhando com especialistas em scripts e materiais de toda a região para trazer as ferramentas de imagem adequadas.

Processo de conservação pode levar até um ano antes de exposição

O artefato precisa ser estabilizado antes de qualquer estudo mais profundo prosseguir. Bretzel afirmou que as partes de couro e madeira estão agora submersas em água destilada regularmente trocada, o que impede que o material orgânico se contorça ou rache após sua remoção abrupta do solo encharcado. O processo é meticuloso e não pode ser apressado.

Testes de conservação mapeiam a cera em detalhes minuciosos. Especialistas desejam saber se o revestimento é cera de abelha pura, uma mistura com resinas, ou uma combinação que inclui pigmentos. Eles precisam determinar a temperatura de amolecimento. O tipo de madeira também requer identificação em laboratório. Cada ponto de dados molda o plano de preservação de longo prazo. Bretzel estimou que a estabilização completa pode levar até um ano inteiro:

  • Submersão contínua em água destilada trocada regularmente
  • Testes químicos para determinar composição da cera
  • Análise de madeira para identificação botânica
  • Mapeamento detalhado de todas as anotações visíveis
  • Documentação fotográfica de alta resolução
  • Planejamento de tratamento de consolidação apropriado

A LWL trabalhou em estreita coordenação com a cidade de Paderborn e o empreiteiro de escavação durante todo o projeto de construção. Rüschoff-Parzinger afirmou que essa coordenação manteve a obra no cronograma e garantiu que o objeto frágil chegasse rapidamente ao laboratório de restauração em Münster. Assim que conservação e estudo forem concluídos, o caderno do século XIII será exibido no LWL-Museum in der Kaiserpfalz em Paderborn, onde o público poderá apreciar diretamente esse raro fragmento de vida medieval preservado contra todas as probabilidades.

Beatriz Lima é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2024.

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