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As estrelas do centro de A Noite Estrelada, obra do pintor pós-impressionista holandês Vincent van Gogh, pertencem ao aglomerado das Híades, localizado na constelação de Touro. A conclusão é de um grupo de pesquisadores sul-coreanos, publicada em 22 de outubro de 2026 na revista científica Scientific Reports, do grupo Nature Portfolio. Segundo o estudo, a configuração do quadro corresponde ao céu visível antes do amanhecer de 22 de julho de 1889, em Saint-Rémy-de-Provence, na França. A data contesta a versão tradicional de historiadores da arte e do Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA), que situavam a criação da tela em meados de junho daquele ano.

O trabalho foi feito em conjunto pela empresa sul-coreana de ciência espacial e telescópios robóticos SLLAB e pela Escola de Pesquisa Espacial da Universidade Kyung Hee, em Seul. Elijah Jeong-hyun Kim, CEO da SLLAB e doutorando na universidade, é o primeiro autor do artigo e liderou a equipe ao lado do coautor Ho Jin. Kim explicou que a investigação começou com uma leitura diferente da pintura. “Aos meus olhos, o aglomerado estelar em A Noite Estrelada era o das Híades, na constelação de Touro. Mas estudos anteriores o classificavam como Áries”, disse ele.

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Como a comparação geométrica chegou ao aglomerado das Híades

Para medir a semelhança sem depender da interpretação do artista, os cientistas usaram a análise de forma Procrustes, uma técnica computacional que compara padrões espaciais pelas posições relativas de um grupo de astros. O método ignora o tamanho e a cor que o pintor deu às estrelas na tela. O cruzamento estatístico mostrou que as cinco estrelas centrais formam o arranjo em V típico das Híades. Esse conjunto subia no horizonte leste acompanhado de Vênus e da Lua, antes do nascer do sol, e teve a correspondência mais forte entre todas as constelações testadas.

Constelação de Touro - sololos/ istockphoto.com
Foto: Constelação de Touro – sololos/ istockphoto.com

Para validar o método, a equipe aplicou a mesma ferramenta a outras duas telas de Van Gogh cujo conteúdo astronômico já é conhecido. Uma delas é A Noite Estrelada sobre o Ródano, com a Ursa Maior, e a outra é Terraço do Café à Noite, com o Triângulo de Verão. Nos dois casos, o índice de compatibilidade geométrica foi equivalente ao obtido com a tela de Saint-Rémy-de-Provence.

Em declaração originalmente dada em inglês, e traduzida livremente para este texto, Kim descreveu o momento em que passou a contestar a classificação antiga. “Para um astrônomo observacional, o aglomerado de estrelas em A Noite Estrelada é o das Híades em Touro. Mas, no momento em que li os estudos anteriores explicando-o como Áries, ouvi a pintura me chamando”, afirmou. Segundo o pesquisador, a partir dos resultados do programa, o ônus da prova passou a recair sobre quem tentar demonstrar que o quadro não poderia ter sido pintado no final de julho.

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Números medidos na tela, no desenho e na constelação de referência

O artigo tem o título The actual sky of Van Gogh’s Starry Night: a multidisciplinary reconstruction, e foi assinado pela SLLAB e pela Escola de Pesquisa Espacial da Universidade Kyung Hee. Os índices medidos pela equipe estão listados abaixo.

  • Diferença morfológica entre as cinco estrelas pintadas e o aglomerado real das Híades: 8,17%.
  • Diferença morfológica em estudo a bico de pena feito por Van Gogh após a pintura a óleo: 6,62%.
  • Diferença morfológica de referência na Ursa Maior, no quadro A Noite Estrelada sobre o Ródano: 6,54%.
  • Inclinação do arranjo estelar na pintura: 33,13 graus, dentro da faixa de 32,6 a 35,1 graus calculada para o céu real na manhã de 22 de julho de 1889.

Lua minguante e cartas de Van Gogh sustentam a nova data

A reconstrução reuniu registros meteorológicos históricos, simulações astronômicas e cartas do pintor. A hipótese antiga de que o quadro estava pronto em meados de junho se apoiava em uma carta enviada ao irmão Theo em 18 de junho de 1889, na qual Van Gogh mencionava ter feito “um novo estudo” de um céu estrelado. Os autores, porém, afirmam que essa menção não prova que a tela estivesse concluída naquela data, e que ela pode ter sido elaborada em várias sessões até o mês seguinte.

O ciclo lunar foi o segundo critério usado para descartar a data de meados de junho. As simulações indicam que, por volta de 19 de junho de 1889, a Lua estava na fase minguante gibosa, com formato oval assimétrico e cerca de 63% da superfície iluminada pelo Sol. Na tela exposta no MoMA, porém, Van Gogh pintou uma fina Lua minguante crescente, fase que coincide com o céu da madrugada do final de julho.

As cartas escritas durante a internação mencionam com frequência o som de cigarras, sinal biológico do clima quente típico de julho no sul da França. Os textos também registram observações constantes de Vênus, que o pintor chamava de estrela da manhã, sem qualquer referência à constelação de Áries. “As estrelas de Áries são relativamente fracas, dificilmente suficientes para inspirar um pintor ao amanhecer”, declarou Kim ao explicar o horário em que o holandês observava o horizonte.

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Trabalhos das décadas passadas e a visita ao asilo em Saint-Rémy

A tentativa de usar a posição dos astros para datar a criação de A Noite Estrelada começou há cerca de 40 anos, no meio acadêmico norte-americano. Em 1984, o historiador da arte Albert Boime e o astrônomo George Abell, da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), fizeram as primeiras análises astronômicas da tela. Em 1986, o astrônomo Charles Whitney, da Universidade Harvard, apresentou um levantamento próprio. Os dois trabalhos da década de 1980 associaram as estrelas centrais a Áries, mas chegaram a conclusões conflitantes sobre a configuração do céu.

Van Gogh ficou internado por doze meses, entre 1889 e 1890, no asilo psiquiátrico Saint-Paul-de-Mausole, em Saint-Rémy-de-Provence. Para conferir as condições de observação, Kim viajou até a instituição nos meses de junho e julho de 2019. A partir da janela do quarto que o pintor ocupava e de esboços deixados por ele, a equipe reconstruiu um campo de visão estreito, de cerca de 18 graus, voltado para o horizonte leste.

James Beattie, pesquisador do telescópio espacial Hubble da agência espacial norte-americana (NASA), afirmou que a visão do céu a partir do quarto era bastante restrita durante a internação. “Se a identificação se confirmar, poderemos olhar para o céu hoje e reconhecer as mesmas estrelas que Van Gogh viu”, disse ele.

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