Astrônomos registram sinais de rádio misteriosos e intermitentes do centro da Via Láctea

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Núcleo da Galáxia Via Láctea Foto: Núcleo da Galáxia Via Láctea - McCarthy's PhotoWorks/ Shutterstock.com

Sinais de rádio incomuns, descritos como exibindo um padrão espiral, foram detectados por astrônomos, originários de um ponto distante e brilhante no coração da Via Láctea. Esses pulsos eletromagnéticos são distintos de qualquer outro já registrado, desafiando a compreensão científica de sua verdadeira natureza. A fonte, identificada pelas coordenadas celestes, foi batizada de ASKAP J173608.2-321635.

A emissão de ondas de rádio é um fenômeno corriqueiro no universo, produzida por uma vasta gama de corpos celestes, incluindo planetas, estrelas, buracos negros, pulsares e galáxias, além de tecnologias humanas. Contudo, em meados de outubro de 2021, pesquisadores anunciaram a descoberta de novos sinais radiofônicos que se diferenciam de todas as emissões conhecidas. Originados do centro da nossa própria galáxia, a Via Láctea, esses sinais continuam sem explicação plausível.

A detecção dos sinais, que demonstram variabilidade, foi realizada com o auxílio do radiotelescópio ASKAP, localizado na Austrália. O comportamento singular das emissões de rádio não se alinha aos padrões observados em nenhuma fonte cósmica preexistente. Especialistas sugerem que a anomalia pode indicar a presença de um novo tipo de objeto estelar.

A equipe internacional de astrônomos responsável pela observação dos sinais foi liderada por Ziteng Wang, da Escola de Física da Universidade de Sydney. O estudo, que detalha essa descoberta intrigante, foi publicado no periódico revisado por pares The Astrophysical Journal em 12 de outubro.

A origem desses sinais, designada ASKAP J173608.2-321635, permanece um enigma para a comunidade científica, apesar de sua localização na direção do núcleo da Via Láctea. Conforme explicou Wang, o brilho do objeto pode variar em até cem vezes, e sua emissão se alterna entre ativa e inativa de maneira aparentemente aleatória, um comportamento nunca antes documentado.

via láctea
via láctea – Open stock 01/Shutterstock.com

Independentemente de sua natureza, o fenômeno apresenta uma característica marcante: é altamente polarizado e oscilante. Wang detalhou que a polarização extrema significa que a luz do sinal vibra em uma única direção, mas essa direção executa um movimento de rotação ao longo do tempo, adicionando outra camada de mistério à descoberta.

Um dos aspectos mais notáveis da identificação dessa fonte é o método pelo qual ela foi inicialmente encontrada. Tara Murphy, do Instituto de Astronomia de Sydney e da Escola de Física, revelou que, entre 2020 e 2021, o céu estava sendo mapeado pelo ASKAP para identificar objetos incomuns no âmbito do projeto Variáveis e Transientes Lentos (VAST). Foi nesse contexto que o ASKAP J173608.2-321635 se destacou, pois sua presença era intermitente: ele surgia, brilhava intensamente, desaparecia e reaparecia, um padrão considerado extraordinário.

Os cientistas registraram seis desses sinais em um período de nove meses em 2020. No entanto, as tentativas de localizar a fonte usando telescópios ópticos, que operam na luz visível, foram infrutíferas. Da mesma forma, o radiotelescópio de Parkes, também na Austrália, não conseguiu detectar as emissões.

Posteriormente, o radiotelescópio MeerKAT, situado na África do Sul e com maior sensibilidade que o de Parkes, conseguiu captar o sinal. Ele se manifestou de forma intermitente e com características distintas. Murphy relatou que, felizmente, o sinal voltou a aparecer, mas o comportamento da fonte havia mudado drasticamente. Ele desapareceu em apenas um dia, embora em observações anteriores com o ASKAP, tivesse permanecido ativo por semanas.

A equipe de Wang investigou diversas hipóteses para a origem desses enigmáticos pulsos, incluindo pulsares – estrelas de nêutrons de rápida rotação que emitem feixes de energia – e estrelas que produzem grandes erupções solares. Contudo, os padrões observados na nova fonte não correspondem às expectativas para esses tipos de objetos celestes, levando ao seu descarte.

As características dos sinais também se mostraram divergentes daquelas geradas por fenômenos como supernovas, explosões estelares e rajadas rápidas de rádio (FRBs). Embora esses eventos também exibam variabilidade, eles não se alinham à anomalia recém-descoberta, que persiste como um caso único.

Apesar das diferenças, alguns paralelos foram identificados com outra categoria de fenômenos misteriosos próximos ao centro galáctico, os Transientes de Rádio do Centro Galáctico (GCRTs). David Kaplan, da Universidade de Wisconsin-Milwaukee, mencionou que as informações disponíveis mostram similaridades com essa classe emergente de objetos, que inclui um apelidado de “arroto cósmico”.

Contudo, mesmo compartilhando certas propriedades com os GCRTs, o ASKAP J173608.2-321635 também apresenta distinções. A própria natureza dos GCRTs ainda não é completamente compreendida, o que aprofunda o mistério em torno da nova descoberta.

A detecção representa um quebra-cabeça fascinante para a ciência, impulsionando os pesquisadores a desvendar sua origem. Os próximos passos incluem o monitoramento contínuo dos sinais. Além disso, a futura operação do radiotelescópio transcontinental Square Kilometre Array (SKA) na próxima década, que mapeará o céu com alta precisão diariamente, promete ser fundamental. Murphy expressou a esperança de que o SKA auxilie na solução de mistérios como este e abra novas fronteiras de exploração cósmica no espectro de rádio.

Enquanto a construção do SKA avança, os cientistas persistem na utilização dos telescópios existentes, buscando novas evidências. Independentemente da resolução do enigma, a descoberta certamente oferecerá conhecimentos inovadores e impactantes sobre o universo em que vivemos.

Maria Clara é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2016: Formação: Atriz.

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