Um levantamento do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo (FEA-USP), projeta que a renda total dos municípios do interior do Amazonas cairia cerca de 15% até 2029 caso os benefícios sociais deixem de ter ganho real. O cenário simula a correção dos valores apenas pela inflação, em comparação a um quadro de referência com aumentos reais, e aponta o mesmo percentual de retração para as cidades do interior de Sergipe e de Pernambuco.
A análise consta na Nota de Política Econômica nº 090, intitulada “Quanto perdem as economias do interior quando os benefícios sociais deixam de crescer? Simulações dos efeitos na renda e na pobreza”. O documento avalia o impacto das regras de reajuste de aposentadorias, pensões, Benefício de Prestação Continuada (BPC, auxílio pago a idosos e pessoas com deficiência de baixa renda) e Bolsa Família nos municípios fora das capitais e regiões metropolitanas (MFCRM). Segundo a pesquisadora e codiretora do Made/FEA-USP, Luiza Nassif Pires, esses repasses movimentam a economia local: “Como o valor recebido por essas famílias é usado quase integralmente para a aquisição de itens de primeira necessidade, o dinheiro circula imediatamente no comércio local, garante empregos e mantém a arrecadação municipal ativa”, afirmou.
Projeções da FEA-USP para a renda e a pobreza até 2029
O estudo utiliza microdados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua Anual, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e mantém constantes outras fontes de rendimento, como o trabalho, para isolar o efeito dos programas federais. Na restrição às famílias mais pobres, o levantamento considera pessoas com renda domiciliar por integrante inferior a 1,5 vez a linha de pobreza em 2025, grupo no qual os repasses chegam a compor metade do orçamento doméstico. Luiza Nassif Pires aponta que “para quem vive no limite, qualquer reajuste abaixo da inflação empurra a família diretamente para a pobreza”.
- Queda projetada no interior do Amazonas, Sergipe e Pernambuco até 2029 (sem ganho real): 15% na renda total dos municípios
- Maiores retrações de renda do interior projetadas até 2029: Rio Grande do Norte (18,5%), Amapá (18,2%) e Piauí (17,2%)
- Aumento estimado da extrema pobreza no Amazonas em 2025 sem ganho real entre 2022 e 2025: alta de 2,8% (41 mil pessoas)
- Aumento estimado da extrema pobreza no Amazonas em 2025 com congelamento nominal entre 2022 e 2025: alta de 6,1% (89 mil pessoas)
- Peso do Bolsa Família no Amazonas: de 20% a 23% do rendimento das pessoas de baixa renda
Variação dos benefícios sociais no interior entre 2022 e 2025
Além das projeções até 2029, os pesquisadores realizaram um exercício estatístico sobre o período de 2022 a 2025 para medir o que teria ocorrido nos municípios do interior do Brasil sem aumentos reais nos repasses. O cálculo indica que a ausência de valorização acima da inflação teria levado 2,7 milhões de moradores de fora das regiões metropolitanas para baixo da linha da pobreza nesse intervalo, sendo 2,4 milhões para a extrema pobreza. Em números absolutos de pessoas que entrariam na pobreza nos interiores estaduais, as maiores altas ocorreriam na Bahia (até 336 mil pessoas), em São Paulo (até 263 mil) e em Minas Gerais (até 251 mil), seguidos por Maranhão, Pará e Ceará, com mais de 200 mil pessoas em cada estado.
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Os dados históricos compilados pelo Made/FEA-USP mostram que, durante o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, os benefícios sociais nos municípios fora das capitais e regiões metropolitanas registraram crescimento real de 7,4% ao ano, somando alta acumulada de 24,0% em três anos. No governo de Jair Bolsonaro, os valores tiveram queda real de 1,1% ao ano quando desconsiderado o programa Bolsa Família/Auxílio Brasil, o que representou retração de 4,5% em quatro anos; com a inclusão do programa de transferência de renda, houve avanço real de 0,6% ao ano, acumulando 2,5% no período.
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Dependência econômica e reforma tributária no Amazonas
A economista no Amazonas Denise Kassama Franco do Amaral avalia que os municípios do interior do estado têm estrutura distinta de outras regiões do país devido às dimensões territoriais e ao isolamento logístico, fatores que restringem o escoamento de mercadorias e a geração de vagas no setor privado, concentrando a renda nos pagamentos das prefeituras e da União. “Esse recurso, embora muito pequeno, é o que move a pouca economia dos municípios. É difícil você fazer uma atividade econômica onde você não tem muito para quem vender. Diferente de outro estado, muitos lugares podem até ter boa produção ou potencial de produção agrícola ou criatória, mas não tem como vender fora do município porque o acesso é difícil. Então, o que acaba segurando a atividade econômica dos municípios são os beneficiários do Bolsa Família”, declarou.
Kassama também aponta que as finanças das cidades amazonenses sofrerão impacto adicional a partir de 2027 com a transição da reforma tributária, que altera a cobrança do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS). “Lembrando também que, no ano que vem, já começam a valer as novas regras da reforma tributária, onde o que hoje é o ICMS passa a ser tributado no destino e não na origem. Isso significa que o Amazonas vai ter perda de arrecadação e a gente sabe que parte desse ICMS é distribuída entre os municípios. Então, a gente já está numa situação que tende a ser fragilizada ano que vem e, se houver corte desses benefícios, pior ficará”, disse a economista.
Como funcionam os limites de renda do Bolsa Família em 2026?
A discussão sobre o formato dos programas de transferência de renda ganhou repercussão após declaração da administradora Daniella Marques, assessora econômica do candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL). Ela defendeu o estabelecimento de um prazo de dois anos para que os inscritos no Bolsa Família abram um negócio ou aceitem emprego com carteira assinada, mencionando uma regra de transição com retorno automático caso a iniciativa não dê certo. A assessora não detalhou como funcionaria o mecanismo de reintegração automática ao programa.
Pelas normas vigentes em outubro de 2026, o ingresso no Bolsa Família exige renda mensal por pessoa da família de até R$ 218,00 e inscrição atualizada a cada dois anos no Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico), além do cumprimento de condicionalidades de saúde e educação, como pré-natal para gestantes e vacinação em dia para crianças menores de sete anos. Quando a família eleva os seus rendimentos pelo trabalho, entra na chamada Regra de Proteção: desde que a renda mensal por integrante não ultrapasse o teto de R$ 706,00, o domicílio continua recebendo 50% do valor do benefício por até 18 meses.
