Um avanço científico brasileiro está transformando a vida de pacientes com lesões medulares graves. Pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), liderados pela professora doutora Tatiana Sampaio, desenvolveram um tratamento experimental baseado na polilaminina, uma proteína extraída da placenta, que restaurou parcialmente movimentos em cães e humanos. Iniciada em 1999, a pesquisa mostrou resultados promissores em testes clínicos, com pacientes recuperando funções motoras antes consideradas impossíveis. O estudo, financiado pela Faperj, aguarda autorização da Anvisa para novos testes em humanos, visando garantir segurança e eficácia. O tratamento é aplicado em até 72 horas após o trauma, oferecendo esperança a tetraplégicos e paraplégicos. A inovação, que já ganhou destaque internacional, pode mudar o futuro da medicina regenerativa.
A pesquisa começou com a observação da laminina, uma proteína abundante na fase embrionária, mas rara em adultos. A equipe da UFRJ descobriu como recriar uma malha de polilaminina em laboratório, capaz de reconectar neurônios danificados. Esse avanço foi testado em pacientes como Bruno Drummond de Freitas, que, após um acidente em 2018, recuperou movimentos significativos, como caminhar e até correr.
- Principais conquistas do estudo:
- Recuperação de movimentos em seis pacientes humanos.
- Resultados positivos em quatro de seis cães testados.
- Publicação em revista científica internacional em 2021.
Origem da descoberta
A jornada da polilaminina começou há mais de duas décadas nos laboratórios da UFRJ. Tatiana Sampaio, bióloga e professora da instituição, identificou o potencial da laminina, uma proteína que forma uma rede de comunicação entre neurônios durante o desenvolvimento embrionário. Com o tempo, sua equipe conseguiu extrair e sintetizar a polilaminina a partir de placentas humanas, criando um composto capaz de estimular a regeneração neural. O processo, que levou 18 anos para ser patenteado, envolveu colaboração entre cientistas, médicos e fisioterapeutas.
O estudo inicial focou em entender como a lesão medular interrompe a comunicação entre o cérebro e os músculos. Quando a medula espinhal é danificada, os axônios – extensões dos neurônios responsáveis por transmitir sinais – são destruídos, impossibilitando movimentos. A polilaminina atua como uma ponte, permitindo que esses axônios se reconectem ao próximo neurônio, restabelecendo o impulso elétrico.
- Etapas do desenvolvimento:
- 1999: Início da pesquisa com laminina.
- 2007: Primeiros testes em modelos animais.
- 2018: Testes clínicos em humanos com lesão medular aguda.
- 2021: Publicação dos resultados em cães.
Impacto nos pacientes
O bancário Bruno Drummond de Freitas é um exemplo vivo do potencial da polilaminina. Após um acidente de carro em 2018, ele sofreu uma lesão cervical grave, resultando em tetraplegia. Durante a cirurgia de emergência, recebeu uma injeção de polilaminina diretamente na medula, com autorização da família para participar do estudo clínico. Duas semanas depois, começou a mexer o dedão do pé, um marco que evoluiu para a recuperação de movimentos em pernas, braços e abdômen. Hoje, Bruno caminha, sobe escadas e até corre, embora com limitações.
Outros pacientes também relataram avanços. Nilma Palmeira de Melo, artesã, conseguiu ficar em pé, algo que os médicos julgavam impossível. Silvânia, outra participante, passou a pedalar, enquanto Guilherme recuperou mobilidade nos braços e mãos. Dos oito pacientes iniciais do estudo, seis apresentaram melhoras, embora dois não tenham sobrevivido aos traumas iniciais.
Aplicação em animais
Antes dos testes em humanos, a polilaminina foi avaliada em cães com lesões medulares. Em 2021, uma empresa farmacêutica brasileira conduziu experimentos com seis animais que haviam perdido a mobilidade devido a traumas antigos. Quatro deles recuperaram movimentos, como andar e sustentar o próprio peso. Esses resultados, publicados em uma revista científica internacional, reforçaram a viabilidade do tratamento e atraíram atenção global.
- Benefícios observados em cães:
- Recuperação de movimentos em membros inferiores.
- Melhora na coordenação motora.
- Redução de sequelas permanentes em quatro dos seis animais testados.
A aplicação em animais também serviu como base para ajustes na fórmula do medicamento, que agora passa por testes complementares para atender às exigências regulatórias da Anvisa.
Processo regulatório e próximos passos
A transição da polilaminina de experimento acadêmico para medicamento comercial enfrenta desafios regulatórios. A Anvisa exige testes adicionais de segurança antes de liberar a fase 1 de ensaios clínicos em humanos, que envolverá um grupo maior de pacientes. Claudiosvan Martins, coordenador de pesquisa clínica da agência, destacou que os estudos acadêmicos iniciais, embora promissores, foram limitados a poucos participantes, o que exige maior validação.
A empresa farmacêutica responsável pelo composto está finalizando os testes complementares. A expectativa é que, com a aprovação, o tratamento possa ser ampliado, beneficiando mais pacientes com lesões medulares agudas. Especialistas, no entanto, recomendam cautela, já que os resultados precisam ser confirmados em estudos mais amplos.
- Requisitos para aprovação:
- Comprovação de segurança em testes pré-clínicos.
- Dados de eficácia em humanos em maior escala.
- Conformidade com padrões internacionais de medicamentos.
Significado para a medicina regenerativa
A pesquisa da UFRJ representa um marco na medicina regenerativa. Segundo o neurocirurgião Marco Aurélio de Lima, nenhum outro estudo global demonstrou regeneração medular com resultados tão concretos. A polilaminina pode abrir caminho para tratamentos de outras condições neurológicas, como lesões cerebrais ou doenças degenerativas. A capacidade de reconectar neurônios danificados é um avanço que vai além das lesões medulares, com potencial para revolucionar o campo.
A colaboração entre a UFRJ, a Faperj e a indústria farmacêutica foi essencial para o progresso do estudo. A patente, registrada após quase duas décadas, garante ao Brasil a liderança nesse desenvolvimento. A comunidade científica internacional acompanha de perto os próximos passos, enquanto pacientes como Bruno celebram a independência reconquistada.
