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Um pedreiro de 49 anos percorreu mais de 2 mil quilômetros de ônibus, de Imperatriz, no Maranhão, até Belo Horizonte, em Minas Gerais, para conhecer uma mulher que só existia em vídeos gerados por inteligência artificial (IA). O caso levou especialistas em tecnologia e direito a explicar como reconhecer deepfakes, que são vídeos e áudios falsos feitos com manipulação digital, e quais punições se aplicam. No Brasil, usar essas ferramentas para cometer fraude eletrônica prevê pena de quatro a oito anos de reclusão e multa.

Edimar Rocha Martins deixou o Maranhão em 9 de outubro de 2026 e chegou à capital mineira em 11 de outubro. A expectativa era morar em uma fazenda com uma mulher apresentada nas redes sociais como Jéssica Oliveira, também conhecida como Jéssica Fazendeira. Ao chegar sem endereço e mostrar fotos a moradores, descobriu que a pretendente não existia. “Tem coisa pior do que uma solidão, né? A solidão é tristeza, desânimo, depressão. Eu vim, mas não encontrei a pessoa que estava prevista”, declarou o trabalhador, que havia perdido a mãe recentemente.

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Sinais que denunciam vídeos falsos e programas que os detectam

Para evitar novos golpes, o cientista de dados Arnobio Morelix, da Faculdade Sirius, recomenda que a checagem de um vídeo suspeito comece pelo contexto da mensagem, sobretudo quando há pedido de senha ou decisão urgente. Segundo ele, os defeitos visuais estão diminuindo. Mesmo assim, falhas entre lábios e voz ainda aparecem: a boca fica entreaberta, fecha com atraso ou os dentes parecem um bloco único. Também entregam a manipulação a ausência de pausas naturais de respiração na fala sintética e a iluminação uniforme demais no rosto em relação ao fundo.

inteligência artificial
Foto: inteligência artificial – Mer_Studio/Shutterstock.com

“O erro que a gente vê hoje é procurar defeitos na imagem, mas o deepfake de hoje é muito bom na imagem; o que ele é ruim é no contexto”, afirmou Morelix. A fala resume a orientação dele: a checagem deve olhar a mensagem, e não apenas o rosto da pessoa na tela.

Veja também: Pedreiro viaja do Maranhão a Minas por mulher criada por IA

No rastreio técnico, o especialista em IA e diretor-executivo (CEO) da Allcom Telecom, Marcio Fabozi, citou programas de identificação forense digital como SynthID, Hive AI e Reality Defender. Ele também lembrou o padrão de marca d’água C2PA, empregado em conteúdos das plataformas Gemini e Claude. “Um detector como esses pode apontar indícios de manipulação, mas a confirmação depende de outras verificações, como a fonte, o contexto e a autenticidade da informação”, disse Fabozi, ao lembrar que nenhuma ferramenta é infalível isoladamente.

Crescimento de fraudes com IA e pena prevista para quem cria deepfakes

O alerta vem em meio à alta das fraudes com técnicas avançadas de IA e identidades sintéticas. Segundo o 5º relatório anual Identity Fraud Report 2025-2026, esses ataques cresceram mais de 126% no Brasil em 2025, enquanto as tentativas por programas mal-intencionados subiram 220%. A empresa de cibersegurança NordVPN, que tem Marijus Briedis como diretor de tecnologia, advertiu que criminosos simulam rostos e vozes de pessoas conhecidas para divulgar investimentos falsos nas redes sociais. Na esfera jurídica, o advogado Rodrigo Baraldi explicou que produzir ou compartilhar deepfakes configura crime quando serve de instrumento para estelionato, fraude eletrônica, crimes contra a honra ou violência psicológica contra a mulher. Segundo ele, a vítima pode acionar a Justiça criminal e pedir indenização por danos morais e materiais na esfera cível, independentemente de condenação penal.

Confira também: Estudante de Direito da UFMG morre afogado no CEU em Belo Horizonte

Perfil com 300 mil seguidores e o que a polícia informou sobre o caso

O perfil que atraiu o pedreiro somava mais de 300 mil seguidores no TikTok e exibia vídeos em que a personagem dizia ser divorciada e prometia sustentar um companheiro no interior mineiro. Sob condição de anonimato, o administrador da página afirmou ter criado a conta como isca de audiência para gerar vendas como afiliado. Ele negou conversas privadas com Martins, que relatou ter recebido apenas respostas automáticas.

Sem dinheiro para seguir após os gastos da viagem, o trabalhador passou a receber assistência pública. A conta virtual saiu do ar nos dias seguintes à acolhida, conforme a sequência abaixo.

  • 13 de outubro de 2026: acolhido pela Unidade de Atendimento e Acolhimento ao Migrante da Prefeitura de Belo Horizonte, Martins embarcou de ônibus com passagem custeada pelo município rumo ao Tocantins, seu estado natal.
  • 14 de outubro de 2026: o criador do perfil Jéssica Oliveira desativou a página, e a prefeitura emitiu alerta oficial nas redes sociais sobre conteúdos manipulados por IA.
  • 15 de outubro de 2026: a Polícia Civil de Minas Gerais informou que não houve registro de boletim de ocorrência sobre o caso e esclareceu que criar personagens com IA não é crime por si só, salvo quando usado para causar prejuízo patrimonial e obter vantagem ilícita.

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