O vento solar lento na coroa interna do Sol move-se até quatro vezes mais rápido do que os modelos científicos previam. A missão Proba-3 da Agência Espacial Europeia captou essas rajadas por meio de eclipses solares artificiais criados em órbita. Os dados vieram de imagens em alta resolução da região próxima à superfície solar.
Os pesquisadores acompanharam estruturas de plasma que alcançaram velocidades entre 250 e 500 quilômetros por segundo. Antes, estimava-se que o vento solar lento, formado perto da superfície, tivesse cerca de 100 km/s nessa zona. A descoberta abre novas questões sobre os processos que aceleram o fluxo de partículas carregadas emitidas pelo Sol.
Observações da missão Proba-3
A Proba-3 consiste em dois satélites que voam em formação precisa, separados por cerca de 150 metros. Um deles atua como ocultador, bloqueando o disco brilhante do Sol para permitir a visão clara da coroa. Desde o lançamento em dezembro de 2024, a missão já produziu 57 eclipses artificiais e acumulou mais de 250 horas de vídeos da atmosfera solar.
O instrumento ASPIICS registrou movimentos na coroa interna, uma área de difícil acesso que fica a partir de cerca de 70 mil quilômetros da superfície solar. As imagens revelaram rajadas irregulares do vento solar lento, que surgem quando linhas do campo magnético se rompem e se reconectam. Essas estruturas aparecem como feixes brilhantes em contraste com o fundo da coroa.
Os dados mostram acelerações e velocidades que surpreenderam a equipe. As medições cobrem o campo de visão completo do instrumento e permitem rastrear o comportamento do plasma em detalhes inéditos.
Comparação com conhecimentos anteriores
Cientistas sabiam que o vento solar rápido, originado em buracos coronais, atinge cerca de 772 km/s. O tipo lento, mais comum, era associado a velocidades menores perto da superfície. Modelos indicavam valores em torno de 100 km/s na região interna da coroa.
As novas observações mudam esse panorama. Blocos de plasma rastreados pela Proba-3 atingiram 250 a 500 km/s, ou seja, três a quatro vezes o valor esperado. As estruturas não se movem de forma uniforme e geram perturbações magnéticas em pequena escala.
- Rajadas lentas observadas na coroa interna
- Velocidades medidas entre 250 e 500 km/s
- Aceleração maior que os modelos anteriores
- Origem ligada a reconexões de campo magnético
- Imagens captadas com ocultador artificial em órbita
Detalhes do instrumento ASPIICS
O ASPIICS combina polarimetria e imagens para estudar a coroa com resolução elevada. Ele opera com filtros espectrais e registra um ou dois quadros por minuto, que são combinados em sequências de vídeo. A configuração de formação voadora permite observar até 1,1 raio solar do centro, mais próximo que a maioria dos coronógrafos espaciais.
Essa capacidade resolve limitações de observações terrestres. Eclipses naturais duram poucos minutos e ocorrem raramente. Telescópios no solo precisam cobrir áreas amplas para evitar vazamento de luz, o que impede a visão da região mais interna. A Proba-3 supera esses obstáculos ao recriar condições de eclipse por até seis horas por órbita.
Implicações para o estudo do clima espacial
O vento solar carrega partículas carregadas que interagem com o campo magnético da Terra e de outros planetas. Fluxos mais rápidos ou irregulares podem influenciar tempestades geomagnéticas e níveis de radiação no espaço. Entender a formação e aceleração inicial ajuda a melhorar previsões de eventos que afetam satélites, redes elétricas e viagens espaciais.
A missão também contribui para o conhecimento sobre ejeções de massa coronal. Essas erupções partem da coroa e podem chegar ao sistema solar interno. Os dados da Proba-3 preenchem a lacuna entre a superfície solar e as regiões mais distantes já monitoradas por outras sondas.
Próximos passos da pesquisa
A equipe planeja analisar mais dados coletados desde julho de 2025. O foco inclui variações temporais e espaciais das estruturas observadas. Os resultados iniciais foram publicados em março de 2026 no periódico The Astrophysical Journal Letters.
Cientistas destacam que este é apenas o começo. A capacidade de monitorar a velocidade do vento solar perto do Sol de forma contínua abre caminho para modelos mais precisos da física solar. Futuras missões podem usar tecnologias semelhantes para estender as observações.
O estudo confirma o potencial da formação voadora para avanços em astronomia solar. As imagens e medições da Proba-3 já fornecem visões inéditas de processos dinâmicos na coroa interna.
