Kia recebe 30 dias da Justiça para negociar dívida no Brasil

Kia logo - MP_Foto / Shutterstock.com

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A Justiça brasileira retirou de pauta na quarta-feira (14) o julgamento sobre a cobrança tributária da Kia e concedeu prazo de 30 dias para que a montadora sul-coreana e o Governo Federal negociem um acordo amigável. A disputa envolve uma dívida estimada em mais de R$ 6 bilhões em valores corrigidos, e a empresa pleiteia o perdão do montante em troca do compromisso de construir sua primeira fábrica de veículos no Brasil, em Piracicaba (SP).

Em posicionamento oficial divulgado na sexta-feira (16), a matriz sul-coreana comentou o andamento das conversas, mas evitou confirmar o projeto industrial no interior paulista. “A Kia Corporation mantém seu compromisso com o diálogo construtivo com as partes relevantes no Brasil em relação à longa disputa judicial. A Kia continua explorando oportunidades de negócios em mercados de todo o mundo, incluindo o Brasil, como parte de suas operações globais. No entanto, nenhuma decisão foi tomada em relação a qualquer investimento específico no Brasil”, informou em nota.

Projeto da fábrica da Kia em Piracicaba e parceria com a Hyundai

Hyundai – FotograFFF / Shutterstock.com

As tratativas de bastidores, reveladas em julho de 2026 pelo jornalista especializado no setor automotivo João Anacleto, preveem a instalação da nova planta da Kia em Piracicaba (SP), ao lado do complexo industrial já existente da Hyundai. O plano em negociação projeta a inauguração da unidade até 2028, podendo atender à produção de veículos de ambas as marcas do grupo sul-coreano. Isso ocorre porque a fábrica atual da Hyundai no município opera no limite de sua capacidade produtiva em três turnos e não dispõe de espaço físico no terreno atual para ampliação.

O grupo Hyundai-Kia prepara uma sequência de lançamentos de veículos de porte compacto e médio no mercado brasileiro baseados na plataforma K3. Essa arquitetura estreou no país com o hatch Hyundai i20, sucessor do HB20, e também servirá de base para a próxima geração do SUV Creta, duas picapes e o novo SUV compacto Hyundai Bayon, este último confirmado para o primeiro semestre de 2027 na linha de montagem de Piracicaba.

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Prazos do processo da Kia, valores e números da operação

  • Valor estimado da dívida tributária: mais de R$ 6 bilhões em valores corrigidos cobrados pela União.
  • Prazo judicial para conciliação: 30 dias a partir da decisão divulgada em 14 de outubro de 2026.
  • Previsão de abertura da fábrica em Piracicaba (SP): até 2028, caso o acordo seja fechado.
  • Estimativa de postos de trabalho: 5 mil empregos diretos e mais de 15 mil indiretos.
  • Limite atual da planta da Hyundai em Piracicaba: 215 mil veículos por ano.
  • Desempenho comercial da Kia de janeiro a setembro de 2026: 4.218 veículos emplacados no Brasil (alta de 39% sobre igual período de 2025), liderados pelo utilitário Bongo (3.104 unidades) e pelo SUV Sportage MHEV (513 unidades).

Origem da dívida de R$ 6 bilhões da Kia nos anos 1990

A cobrança bilionária que tramita na Justiça tem origem na década de 1990 e foi contraída pela Asia Motors, antiga subsidiária adquirida pela Kia em 1976. Entre 1996 e 1997, a empresa aderiu ao regime automotivo brasileiro e recebeu incentivos fiscais para importar veículos com redução de impostos, como as vans Towner e Topic. Em contrapartida, a companhia assinou a promessa de investir US$ 500 milhões para erguer uma fábrica em Camaçari (BA), chegando a lançar a pedra fundamental da unidade em 1997.

Com a crise financeira asiática de 1997, a Kia faliu e teve o controle adquirido pela Hyundai em 1998. Na sequência, a Asia Motors foi extinta e a planta prometida na Bahia jamais saiu do papel. Diante do descumprimento do acordo, o governo brasileiro cancelou os benefícios fiscais em 1998, passou a cobrar os impostos de importação abatidos entre 1996 e 1997 e apontou a Kia como sucessora legal da dívida.

Transição da Kia com o Grupo Gandini e portfólio no Brasil

Caso a conciliação entre a matriz sul-coreana e o Governo Federal seja concretizada, a Kia Corporation assumirá diretamente o comando de suas operações no país, encerrando uma parceria comercial de 34 anos na importação com o Grupo Gandini, cuja transição é prevista até o fim de 2026. Em declarações anteriores sobre o processo, o presidente da Kia Brasil e do Grupo Gandini, José Luiz Gandini, comentou o cenário da representação local. “É uma negociação que não tem prazo, não tem previsão. Enquanto isso não acontece, tudo se mantém como está e eu sigo no comando da importação”, afirmou o executivo.

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O empresário também indicou que o grupo busca alternativas para o futuro no setor automotivo nacional. “Estamos conversando com outras marcas, é natural isso. O ideal para nós é que um eventual parceiro, no futuro, tenha interesse em produzir veículos no Brasil. Com a Kia vimos que a carga tributária inviabilizou o avanço da marca no mercado em termos de volume de vendas”, declarou José Luiz Gandini. Atualmente, o catálogo da marca no país conta com oito modelos importados: o utilitário Bongo (montado pela Nordex no Uruguai), Sportage MHEV, Sorento, Niro HEV, Stonic MHEV, Carnival HEV e os elétricos EV5 e EV9.

Até o momento, os modelos exatos da marca Kia que entrariam na linha de produção de Piracicaba não foram definidos nem divulgados. Além disso, o valor exato do investimento para a nova planta e as estimativas de geração de empregos não têm confirmação oficial da montadora nem do Governo Federal. Se as partes não chegarem a um entendimento dentro do prazo de 30 dias, o processo voltará à pauta do tribunal em sessão marcada para 3 de dezembro de 2026, data prevista para a retomada das discussões, e não para uma decisão final.

Bruna: Bruna Santos é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve e colabora para o portal desde 2024. Formação: Professora.